Por Marco Severini — Buckingham Palace declarou estar pronto a colaborar com a investigação da Thames Valley Police sobre as acusações que envolvem o Príncipe Andrew. A nota oficial sublinha que o rei Carlos expressou, “com palavras e ações sem precedentes”, sua profunda preocupação diante das alegações que continuam a emergir sobre o comportamento de Andrew Mountbatten-Windsor.
O comunicado ressalta que as acusações específicas são matéria que cabe ao próprio senhor Mountbatten-Windsor enfrentar. Ainda assim, esclarece que, caso a Thames Valley Police solicite contato com a Casa Real, o Buckingham Palace está preparado para prestar apoio “como seria de se esperar”. O Palácio reiterou, por fim, que “os pensamentos e a solidariedade de suas majestades estão e continuarão voltados às vítimas de qualquer forma de abuso”.
Esta posição do Palácio surge como um movimento cauteloso no tabuleiro institucional: por um lado, manter a separação formal entre a responsabilidade pessoal do ex-membro da família real e a instituição monárquica; por outro, preservar a legitimidade moral da Coroa ao afirmar solidariedade às vítimas. É um ajuste estratégico que busca reduzir riscos reputacionais, sem, contudo, usurpar a esfera legal que recai sobre Andrew.
No mesmo compêndio de revelações ligadas à rede de Jeffrey Epstein, voltaram a público trechos de comunicações que colocam o nome de Donald Trump sob nova luz. Em mensagens datadas de 1º de janeiro de 2019, atribuídas ao financista Jeffrey Epstein e dirigidas a Steve Bannon, Epstein descreve Trump com termos cortantes, sugerindo que o então presidente “precisa de um bullo maior que ele” e que, quando tratado com respeito, Trump supostamente “acha que você é um cretino” e perde respeito.
Esses fragmentos, extraídos de arquivos liberados pelo Departamento de Justiça, reintroduzem uma tessitura diplomática e pessoal entre figuras centrais do poder americano: não apenas uma disputa de egos, mas a representação de quem exerce influência e de que modo essa influência é consolidada — uma dinâmica que, em termos de estratégia, redesenha fronteiras invisíveis do poder.
Outro eixo relevante das últimas movimentações diz respeito a Ghislaine Maxwell, condenada a vinte anos de prisão por seu papel na rede de pedofilia de Epstein. Antes de sua deposição perante a comissão investigativa da Câmara dos Representantes, Maxwell invocou o Quinto Emendamento e não respondeu às perguntas. Seu advogado, David Oscar Markus, afirmou publicamente que tanto o presidente Trump quanto o ex-presidente Clinton são “inocentes” e que somente Maxwell poderia esclarecer os fatos — desde que lhe fosse concedida clemência.
Markus declarou, em publicação na rede social X, que “se a comissão e o público americano desejam ouvir a verdade não filtrada, há um caminho claro: a senhora Maxwell está pronta a falar plenamente e honestamente se lhe for concedida clemência pelo presidente Trump”. A hipótese de perdão presidencial nunca foi descartada pelo próprio Trump, mas a figura de Maxwell tem sido alvo de críticas transversais, dentro de um cenário político em que a credibilidade das fontes e a instrumentalização de testemunhos adquirem impacto imediato sobre a geopolítica doméstica.
Em síntese, assistimos a um movimento em vários planos: a monarquia britânica navega cuidadosamente para proteger sua legitimidade institucional; as revelações dos arquivos Epstein reativam linhas de tensão entre atores centrais dos EUA; e a possibilidade de negociação de depoimentos mediante clemência levanta questões éticas e estratégicas sobre o uso do poder executivo no ajuste de narrativas judiciais. No tabuleiro, cada peça faz seu movimento com vista ao equilíbrio do conjunto — e o jogo de influências permanece aberto.






















