Por Marco Severini — Num movimento discreto, coerente com sua imagem pública nas últimas décadas, Brigitte Bardot, a atriz francesa que morreu em 28 de dezembro aos 91 anos, foi hoje sepultada em sua cidade natal, Saint-Tropez. A cerimônia, pensada para refletir tanto o seu amor inabalável pelos animais quanto as posições políticas que a tornaram figura polarizadora, teve caráter contido e íntimo, conforme a Fundação Brigitte Bardot anunciou.
A presença de nomes de destaque confirma o duplo perfil da homenageada: ao lado de personalidades do mundo cultural e ambiental esteve a liderança nacional de perfil conservador. Entre os presentes estavam Marine Le Pen, o ativista ambiental Paul Watson e a cantora e amiga pessoal Mireille Mathieu, que se apresentou durante as exéquias.
Bruno Jacquelin, porta-voz da fundação que cuida dos direitos dos animais criados por Bardot, sublinhou que a cerimônia seria “sem frufru” — uma escolha calculada, que traduz tanto uma preferência pessoal quanto uma estratégia pública para preservar a imagem final de uma figura complexa. “A cerimônia refletirá quem ela era, com as pessoas que a conheceram e amaram. Sem dúvida haverá algumas surpresas, mas será simples, exatamente como queria Brigitte”, declarou Jacquelin.
O cortejo e a cerimônia foram projetados também para o público local: as homenagens foram transmitidas em telas públicas em Saint-Tropez, permitindo que admiradores — desafiando o frio invernal — se reunissem externamente para prestar o último tributo.
Mas a trajetória de Bardot não se reduz à aura de mito cinematográfico. Ao longo dos anos finais de sua vida, sua retórica anti-imigração e passagens classificadas como racistas afastaram parte do público e geraram múltiplas condenações judiciais por discurso de ódio — cinco condenações, em especial por declarações dirigidas a muçulmanos. Seu falecimento desencadeou, portanto, reações ambíguas: reconhecimento artístico e condecoração simbólica por um lado; repúdio e silêncio discreto por parte de setores da esquerda, por outro.
O gabinete do presidente Macron chegou a propor um tributo nacional, na esteira do que fora organizado em 2021 para Jean-Paul Belmondo, figura da Nouvelle Vague. A família de Bardot, no entanto, recusou a oferta, optando por uma despedida com contornos privados.
Sobre a esfera íntima, a atriz deixa o quarto marido, Bernard d’Ormale, ex-assessor do controverso Jean-Marie Le Pen. Não houve confirmação pública sobre a presença de seu único filho, Nicolas-Jacques Charrier, que aos 65 anos vive em Oslo e foi criado pelo pai, o diretor Jacques Charrier. Na sua autobiografia, Bardot relatou um desejo de aborto negado pelo marido da época, descrevendo a gravidez com termos cruéis e confessando que viveu grande parte da vida distante da paternidade, mesmo que tenham ocorrido reaproximações tardias.
A irmã de Bardot, Mijanou, de 87 anos, não pôde comparecer vindo de Los Angeles devido a problemas de saúde. Em uma publicação que traduz emoção e resignação, Mijanou escreveu sobre a crença familiar de que os animais amados aguardam no outro lado — um gesto simbólico que alinha a vida pública da atriz à sua causa privada.
Em depoimentos anteriores, a própria Brigitte Bardot expressou o desejo de ser enterrada no jardim de sua casa junto aos seus animais, evitando que visitantes indesejados profanassem sepulturas familiares. Essa decisão é parte de uma última jogada de controle sobre a narrativa de sua existência: a construção de um legado que mistura glamour, defesa animal e convicções políticas extremas — um xeque-mate ambíguo no tabuleiro público.





























