Board of Peace para Gaza, a iniciativa impulsionada por Trump, desenha um novo eixo na tectônica do poder internacional e provoca uma cisão entre aliados históricos. De um lado, há a adesão — confirmada por sete autoridades até agora e, de forma simbólica, pelo próprio Netanyahu. Do outro, recusas e cautelas jurídicas, com a primeira-ministra italiana Meloni invocando o artigo 11 da Constituição para vetar, provisoriamente, a participação italiana.
No concreto: foram convidados 52 países, mas apenas 9 responderam afirmativamente até o momento. O projeto, que segundo o próprio articulador foi descrito como “Sará o novo Onu“, prevê 15 membros permanentes e um mecanismo de financiamento inicial de 1 bilhão de dólares para garantir permanência entre esses membros. O desenho institucional, com poderes fortemente centralizados e um papel tutelar da Casa Branca, acendeu alerta sobre a possibilidade de criar um organismo paralelo que redimensione o multilateralismo existente.
Do ponto de vista jurídico, a posição de Roma foi clara e calculada. A recusa de Meloni apoia-se no artigo 11 da Constituição italiana, que condiciona a adesão a organizações internacionais à plena paridade entre Estados. Uma estrutura dominada por um único ator, com critérios de acesso financeiros e cláusulas operacionais definidas unilateralmente, suscita questionamentos sobre compatibilidade constitucional e sobre a necessidade de ratificação parlamentar e controle de constitucionalidade. Em linguagem de arquitetura institucional, trata-se de um edifício cuja base não garante as colunas da igualdade entre soberanias.
Politicamente, a adesão de Netanyahu é momentos de tensão moral e estratégica. Líder de um governo que conduziu operações militares de grande intensidade em Gaza, ele é apontado por críticos como responsável político e militar pelos efeitos humanitários devastadores registrados na faixa de fronteira. A presença de um ator tão contestado dentro de um conselho projetado para gerir a paz suscita dúvidas sobre a legitimidade e a credibilidade do mecanismo perante populações afetadas e atores regionais.
Entre as reservas manifestadas por vários Estados figuram: concentração de poderes na presidência norte-americana, opacidade sobre a origem e a destinação do fundo de 1 bilhão de dólares, ausência de representantes palestinos entre os convidados e o risco de fragmentação do sistema de governança global. A proposta de financiamento, que condiciona a permanência ao aporte milionário, foi interpretada como um critério de acesso que privilegia recursos sobre representatividade.
Num tabuleiro estratégico, este movimento se lê como um lance ousado: reposicionar a influência americana sobre a arquitetura internacional através de um organismo capaz de disputar campo com instituições consagradas. É um redesenho de fronteiras invisíveis — não geográficas, mas de autoridade — que exige dos Estados uma leitura de longo prazo sobre custo-benefício geopolítico e sobre os alicerces frágeis da diplomacia multilaterial.
Por fim, há um vácuo prático: não se vislumbran delegações palestinas integradas à iniciativa. Sem a voz dos diretamente envolvidos, o projeto arrisca-se a ser percebido como imposição externa em vez de instrumento de resolução. A reação dos aliados e a tramitação interna nos parlamentos — especialmente naqueles, como o italiano, cuja Constituição impõe salvaguardas — serão determinantes para o futuro imediato dessa proposta.
Em suma, o anúncio do Board of Peace é mais que uma proposta de governança: é um movimento decisivo no tabuleiro global. Exige, para além de anúncios, clareza institucional, paridade real entre Estados e inclusão dos atores centrais do conflito. Sem isso, corre o risco de ser apenas mais um pilar instável na cartografia das influências internacionais.






















