Marco Severini — A Casa Branca anunciou a formação do Board of Peace, organismo internacional indicado para coordenar a fase de pós-conflito e reconstrução em Gaza. A nomeação, tornada pública em janeiro de 2026, reúne sete personalidades de grande influência política e financeira: Tony Blair, Marco Rubio, Steve Witkoff, Jared Kushner, Marc Rowan, Ajay Banga e Robert Gabriel. Segundo o comunicado oficial, caberá ao conselho supervisionar governança, segurança, reconstrução e fluxos financeiros durante a segunda fase do plano norte-americano para a região.
Do ponto de vista da Realpolitik, a escolha dos nomes é um movimento decisivo no tabuleiro. As figuras anunciadas trazem consigo ligações estreitas ao establishment político, financeiro e diplomático ocidental — e, em muitos casos, ao universo de relações próximo a
Israel. O que chama atenção imediata é a ausência de representantes palestinos no corpo diretivo; uma lacuna que pode transformar a operação em um protetorado tecnocrático gerido por atores externos.
É necessário distinguir fatos de interpretações: a Casa Branca apresentou os membros como especialistas em governança e finanças internacionais. Ainda assim, a composição suscita questionamentos legítimos sobre legitimidade e percepção regional. Em cenários de reconstrução pós-conflito, a credibilidade das instituições que administram recursos e segurança depende tanto de competência técnica quanto de aceitação política local — dois alicerces que, neste caso, parecem fragilizados.
Tony Blair chega ao conselho com um histórico que pesa no Médio Oriente. Ex-primeiro-ministro do Reino Unido, envolveu-se na arquitetura da intervenção no Iraque em 2003 e, desde então, tem mantido papéis como mediador e promotor de modelos de “paz econômica”, nos quais o desenvolvimento e a governança técnica substituem reivindicações de soberania. No novo conselho, Blair representa a corrente que prioriza ordem e estabilidade, mesmo quando isso reduz o campo da representação política tradicional.
Marco Rubio, senador americano com histórico de posições firmes sobre segurança e política externa, traz a perspectiva do Congresso dos EUA e dos alinhamentos estratégicos que moldam a política norte-americana no Médio Oriente. Sua participação sinaliza um vínculo direto entre a agenda legislativa americana e o desenho operacional do conselho.
Steve Witkoff e Marc Rowan são nomes vindos do setor imobiliário e do capital privado, com experiência em grandes operações financeiras e reestruturações de ativos. Sua inclusão aponta para uma ênfase clara na reconstrução como projeto econômico de grande escala — uma visão que pode conflitar com demandas de soberania e direitos civis locais.
Jared Kushner, figura central da administração anterior e com laços pessoais e políticos relevantes na região, representa um canal de continuidade entre governos e redes privadas. Sua presença reforça a dimensão geopolítica do empreendimento: a reconstrução de Gaza não é apenas humanitária, mas também um movimento de influência.
Ajay Banga, executivo de perfil global e ex-líder de instituições financeiras, é conhecido por sua atuação em fóruns multilaterais e por ocupar posições de coordenação internacional. A sua participação sugere que estará na interface entre capital privado, organismos multilaterais e a máquina administrativa do conselho.
Por fim, Robert Gabriel (identificado pelo anúncio como membro fundador) aparece como figura ligada ao setor empresarial e a redes internacionais de consultoria e investimento. A Casa Branca não incluiu representantes palestinos no rol inicial — um ponto que analistas locais e regionais já qualificaram como potencialmente desestabilizador para a aceitação do projeto.
Do ponto de vista estratégico, o risco é claro: um conselho homogeneous em experiência e orientações pode impor modelos de gestão e segurança que não correspondam às necessidades de coesão social e legitimidade popular. A reconstrução pode assim tornar-se um «redesenho de fronteiras invisíveis», onde recursos e governança são realocados segundo uma lógica externa de estabilidade, não de reconciliacão.
Nos corredores diplomáticos, murmura-se também sobre o papel de atores regionais — Qatar, Turquia e outros — e sobre a reação do governo israelense. Oficialmente, a Casa Branca disse estar aberta à coordenação com parceiros regionais, mas os detalhes operacionais e a aceitação local permanecem incertos. Em uma partida de xadrez geopolítico, cada movimento precisa considerar reação em cadeia; a escolha dos nomes é um lance ambicioso, porém arriscado, cuja eficácia dependerá mais da capacidade de gerar consenso do que da autoridade técnica dos seus integrantes.
Concluo que o Board of Peace, nascido de uma iniciativa de alto perfil, enfrenta um teste de legitimidade. A sua trajetória determinará se se torna um instrumento de reconstrução sustentável ou um enigma de poder que acentua as divisões. Em diplomacia, como no tabuleiro, a vitória duradoura exige mais que moscas de força — exige alianças capazes de assegurar reconhecimento e durabilidade.






















