Por Marco Severini — Em meio à tensão geopolítica que redesenha fronteiras invisíveis, o inverno na Ucrânia transformou-se num novo eixo de influência: o frio, combinado aos contínuos ataques às infraestruturas energéticas, é agora uma peça decisiva no tabuleiro. Para os jornalistas ucranianos, manter a cadeia informativa acesa exige tanto técnica quanto resistência física e solidariedade organizacional.
Desde o início da ofensiva em larga escala, as campanhas russas contra centros de geração e distribuição de energia geraram massivos blackouts e interrupções de aquecimento. Temperaturas que já caíram a -25 ºC transformam tarefas rotineiras em verdadeiras provas de sobrevivência: carregar baterias, manter equipamentos fotográficos operacionais, preservar a integridade das comunicações e, acima de tudo, não deixar de relatar os fatos.
Em resposta, a União Nacional dos Jornalistas da Ucrânia (NUJU) articulou uma rede nacional de Centros de Solidariedade nas regiões mais expostas — entre elas Kiev, Kharkiv, Zaporizhzhia e Dnipro. Esses centros oferecem espaços de trabalho com acesso a eletricidade e internet durante os apagões, equipamentos de proteção individual, assistência emergencial e coordenação logística para as equipes locais. Na linguagem da diplomacia informativa, tratou-se de levantar alicerces para evitar o colapso da infraestrutura do relato público.
Os relatos vindos de Kiev sintetizam o impacto prático dessa nova geografia do desgaste. Yan Dobronosov, fotorepórter do portal Telegraph, reside em Troieshchyna, grande bairro residencial que depende da usina termoelétrica TEC-6 — alvo de repetidos ataques por mísseis e drones. Como consequência, o fornecimento de aquecimento é intermitente e a energia elétrica instável. “O frio e os bombardeios afetam diretamente nosso trabalho. Gasta-se mais energia, a resistência diminui e as tarefas simples se tornam árduas”, relata Yan.
As condições de campo no inverno impõem desafios técnicos severos: baterias descarregam com rapidez, as mãos congelam comprometendo a destreza necessária para operar câmeras e microfones, e as lentes frequentemente embaçam ao alternar entre ambientes muito frios e aquecidos. Ainda assim, Yan sublinha a dimensão moral: a reportagem continua a ser o principal motor e motivação para enfrentar a rotina hostil.
Problemas análogos atingem moradores e profissionais de Rusanivka, outra área na margem esquerda de Kiev igualmente danificada pelos ataques. Em termos estruturais, as interrupções do fornecimento energético funcionam como movimentos estratégicos num jogo de soma negativa: cada ataque contra infraestrutura é uma ameaça dupla — ao conforto civil e à própria capacidade de produzir informação independente.
A resposta da NUJU, ao articular centros de apoio e oferecer recursos técnicos, representa uma manobra de defesa coletiva. São milhares os jornalistas que, desde o começo da invasão, têm dependido dessa rede para não abdicar do ofício. Em síntese, o que se observa é uma combinação de resiliência humana e engenharia social: profissionais que transformam a adversidade em mobilização organizada, preservando a circulação de informações em plena crise.
Como analista, vejo essa dinâmica numa perspectiva de xadrez estratégico: preservar a capacidade informativa equivale a proteger uma torre crucial no tabuleiro — sem comunicação, diminui-se a visibilidade das ações e as consequências para a diplomacia e para a opinião pública global. A manutenção desses corredores de emergência jornalística é, portanto, não apenas um ato de solidariedade, mas uma necessidade geopolítica para a estabilidade do debate internacional.
Enquanto as temperaturas caem e os ataques persistem, a determinação dos jornalistas ucranianos funciona como um farol: não apenas para relatar a guerra, mas para marcar a arquitetura moral de uma sociedade que resiste a ser silenciada.






















