Por Marco Severini, Espresso Italia. Em um movimento que altera o ritmo diplomático do evento, Bill Gates decidiu cancelar o discurso previsto para hoje no AI Summit na Índia, anunciou a Fundação Gates. A retirada do fundador da Microsoft ocorre imediatamente após sua nomeação nos arquivos de Jeffrey Epstein, documento que continua a reverberar na arena pública e privada.
Em nota oficial, a Fundação Gates afirmou que, “após cuidadosa avaliação e para garantir que a atenção permaneça sobre as prioridades centrais do AI Summit, Gates não fará seu pronunciamento”. A Fundação reiterou seu compromisso com os programas de saúde e desenvolvimento na Índia, informando que o cargo de orador será assumido pelo presidente das sedes na África e na Índia. A substituição é uma jogada que busca preservar a agenda institucional frente ao tumulto reputacional.
Do ponto de vista estratégico, trata-se de um ajuste tático no tabuleiro: preservar o foco do encontro tecnológico — que trata de infraestrutura ética e de governança da inteligência artificial — evitando que contestações pessoais comprometam decisões coletivas sobre políticas públicas digitais. A decisão também reflete a sensibilidade dos anfitriões indianos em manter o evento livre de distrações que possam fragilizar seus objetivos diplomáticos e de cooperação tecnológica.
No centro da controvérsia estão relatos contidos em documentos ligados a Jeffrey Epstein. Em um rascunho de e-mail arquivado entre esses papéis, Epstein alega que teria havido relações extraconjugais envolvendo Gates. Nesse mesmo material, Epstein descreve, com linguagem que exige cautela interpretativa, que seu envolvimento teria incluído desde o auxílio para obtenção de medicamentos destinados a lidar com as consequências de relacionamentos sexuais com “garotas russas” até a facilitação de tentativas ilícitas com mulheres casadas. São alegações que circulam em documentos judiciais e jornalísticos, mas que não equivalem, por si sós, a uma comprovação inédita ou a uma sentença judicial.
Em reação às menções, Gates declarou lamentar “cada minuto” que passou com Epstein. Por sua vez, sua ex-esposa, Melinda, afirmou publicamente que ainda guarda perguntas não respondidas sobre a natureza e a extensão da relação entre Gates e o financista, morto em 2019 nas circunstâncias amplamente reportadas. Essas declarações alimentam um debate mais amplo sobre responsabilidades pessoais e repercussões institucionais, especialmente quando figuras de proa ocupam posições de influência global.
Enquanto as especulações se espalham, a prioridade do AI Summit — governança, segurança e desenvolvimento da inteligência artificial — corre o risco de perder centralidade. O episódio ilustra a fragilidade dos alicerces reputacionais na diplomacia pública contemporânea: um movimento no tabuleiro particular produz efeitos imediatos sobre alianças, plataformas e prioridades coletivas.
Para observadores de longo prazo, a situação exige vigilância equilibrada: medidas de transparência e investigação são necessárias, mas também é imperativo que os países e organizações mantenham o foco nas políticas institucionais que moldam o futuro tecnológico. A tectônica de poder global não tolera distrações permanentes; cada peça retirada do tabuleiro altera as possibilidades estratégicas dos demais atores.






















