Marco Severini — À margem do próximo encontro dos 27 no castelo de Alden Biesen, o ex-embaixador italiano em Berlim e ex-representante junto à UE, Piero Benassi, oferece uma leitura sóbria do atual reposicionamento entre Giorgia Meloni e Friedrich Merz. Longe de celebrar um novo eixo permanente entre Itália e Alemanha, Benassi qualifica o fenómeno como uma convergência política de caráter predominantemente curto e mediato — um movimento no tabuleiro europeu condicionado por interesses industriais, eleitorais e estratégicos.
Segundo Benassi, é preciso retirar a ênfase emotiva que rotula a dupla como uma nova «coppia di potere» ou a crasi midiática ‘Merzoni’. Desde a chegada de Merz ao governo em Berlim, verificou-se uma aproximação prática com Roma em dois eixos que importam a ambas as capitais: a pressão da indústria por uma flexibilização do Green Deal e a convergência política sobre políticas migratórias mais rígidas, tema que igualmente alimenta o receio de perda de votos para a direita alternativa na Alemanha.
Esses pontos de contato, observa o diplomata, não surgem do nada: eles se inserem numa longa cooperação industrial que é vital para a Itália e estratégica para a Alemanha, e num conjunto de desafios comuns — do aumento dos custos energéticos às barreiras ao comércio exterior, da assertividade chinesa às consequências das tarifas norte-americanas. Em suma, fatores positivos e negativos têm alinhado interesses e dificuldades de ambos os países dentro de um quadro político percebido como semelhante.
No entanto, Benassi recusa a ideia de que Roma e Berlim possam substituir o tradicional eixo franco‑alemão. A questão, como coloca o ex-embaixador, é menos de ruptura do que de fragilização: a estabilidade política em Paris apresenta falhas que reduzem temporariamente o papel francês como interlocutor robusto. Ainda assim, perguntar-se-ia, provocativamente, como se poderia avançar no projeto europeu sem a participação de uma França forte.
As dúvidas de médio e longo prazo são substanciais e tocam os chamados bens públicos europeus — da transição digital e ecológica à energia e à defesa —, cuja materialização exige investimentos públicos e privados consideráveis. Benassi assinala que os fundos públicos têm de vir ou dos Estados‑membros, muitos dos quais não dispõem de margem fiscal, ou de instrumentos coletivos como os eurobonds, ou ainda do reforço de receitas próprias do orçamento da UE. Em qualquer dessas vias, a convergência política hoje observada entre Roma e Berlim não garante automaticamente apoio suficiente.
Na linguagem do tabuleiro, trata‑se de um movimento táctico relevante, mas não necessariamente de um novo alinhamento estratégico. A convergência é real, significativa e talvez duradoura num horizonte breve, mas os alicerces que permitiriam transformá‑la num motor substituto do dueto Paris‑Berlim permanecem frágeis. Resta acompanhar como se reorganizará a tectônica de poder na União Europeia quando os dossiers financeiros e de bens públicos exigirem compromissos concretos e recursos tangíveis.
Conclusão: uma convergência prática entre Meloni e Merz existe, com efeitos palpáveis na agenda europeia, porém insuficiente para dissolver o papel central da França ou para assegurar a materialização de projetos de largo alcance sem soluções financeiras claras. É, por ora, um movimento de xadrez que altera a posição das peças, sem ainda redesenhar o tabuleiro.
Marco Severini — Espresso Italia






















