Por Marco Severini — A permanência das bases americanas em solo italiano representa um dos elementos mais visíveis da arquitetura de segurança euro-atlântica. Com aproximadamente 120 instalações de diferentes naturezas espalhadas pelo país, a Itália figura entre os Estados europeus com maior concentração de estruturas militares dos Estados Unidos.
Esse arranjo remonta a acordos bilaterais a partir de 1951, quando Roma autorizou o uso de seu território pelas forças armadas norte-americanas. Formalmente as bases permanecem sob a soberania italiana, ao passo que aos Estados Unidos cabe o controle operacional de muitas atividades. Estima-se que cerca de 13 mil militares americanos atuem em solo italiano, em funções que vão da logística e inteligência a unidades operacionais e de comando.
Geograficamente e funcionalmente, as instalações se distribuem em três categorias: bases da OTAN geridas pela aliança; bases italianas colocadas à disposição da OTAN; e comandos de responsabilidade compartilhada entre Itália, Estados Unidos e OTAN. Entre as bases de maior relevo estratégico destacam-se Aviano, em Friuli; Sigonella, na Sicília; Caserma Ederle e Base Del Din, no Vêneto; Camp Darby, na Toscana; a Naval Support Activity distribuída entre Campânia e Lácio; e Ghedi, na Lombardia.
Sigonella é frequentemente descrita como a “porta-aviões do Mediterrâneo”: uma base mista sob controle italiano, mas utilizada tanto pela Marinha quanto pela Força Aérea americanas. Foi palco, em 1985, do incidente diplomático entre o governo de Bettino Craxi e a administração Reagan durante a crise do Achille Lauro. Hoje Sigonella abriga sistemas de vigilância e plataformas não tripuladas, como os MQ-9 Reaper, além de aeronaves de reconhecimento EP-3.
Aviano, no nordeste, atua como um hub logístico e operacional para reabastecimento de ataques aéreos em teatros como Iraque, Afeganistão, Kosovo e Líbia. A base abriga o 31st Fighter Wing, equipado com caças F-16, e é apontada — sem confirmação oficial — como local de armazenamento de ogivas termonucleares do tipo B61 (versão B61-4).
A presença de ogivas americanas também é atribuída, em termos não confirmados, à base de Ghedi, o que reforça a natureza sensível e muitas vezes confidencial desses arranjos. Camp Darby (Pisa) funciona como plataforma logística onde forças italianas e norte-americanas operam em conjunto, enquanto as instalações navais em Gaeta e Nápoles sustentam a presença de meios navais americanos e da própria OTAN no Mediterrâneo. Gaeta, por exemplo, hospedou nos anos 1990 o comando do USS Theodore Roosevelt durante as operações nos Balcãs.
Além desses polos, existem múltiplas estruturas de apoio e instalações menores: Solbiate Olona, Poggio Renatico, La Spezia, a tenuta de Tombolo, Cecchignola, Mondragone, Taranto e Trapani Birgi, entre outras. Em Nápoles está sediado um dos dois centros de comando não-nATO (o outro encontra-se nos Países Baixos), além de bases de submarinos e do comando de aviação dos Marines no Mediterrâneo.
Do ponto de vista estratégico, a rede de bases italianas é parte de um tabuleiro maior: assegura projeção de poder, logística sustentada e vigilância hemisférica, ao mesmo tempo em que impõe à diplomacia italiana a tarefa de equilibrar soberania nacional e compromissos transatlânticos. Como num xeque posicional, cada instalação funciona como um alicerce — por vezes frágil e sigiloso — da diplomacia ocidental no Mediterrâneo e na África setentrional.
Em termos práticos, além das grandes bases operativas, existe um contínuo de cerca de cem estruturas auxiliares que garantem apoio logístico, inteligência e serviços. A complexidade dessa presença exige leitura fina: não se trata apenas de plataformas militares, mas de uma tectônica de poder que redesenha fronteiras invisíveis e condiciona decisões estratégicas em Roma, Washington e Bruxelas.






















