Por Marco Severini — Às 1h30 do dia 1º de janeiro, a central de atendimento suíça recebeu a primeira ligação que anunciava um desastre: “Quero que venham, porque há uma emergência no Constellation“. Foi o primeiro alarme público de um incêndio que, em poucas horas, se transformaria em tragédia: 40 mortos e 116 feridos, segundo os levantamentos iniciais.
Ao menos 171 chamadas informativas chegaram à central no período de uma hora e meia. Trechos dessas gravações foram divulgados pela televisão francesa BfmTv, que obteve acesso a arquivos presentes nos autos da investigação. Os áudios expõem um quadro de desorientação e horror, com vozes que oscilam entre a lucidez do socorro e o desespero absoluto.
Em inúmeros registros, moradores e frequentadores descrevem, com frases truncadas e imagens sonoras fortes, o avanço rápido das chamas: “Por favor, é o Constellation em Crans-Montana, há um incêndio, há feridos”, diz uma mulher. Em outra chamada, a voz insiste: “É preciso mandar os socorros imediatamente, há muitos feridos!”. As ligações continuam até por volta das 3h da manhã, traduzindo o tempo real do desastre em sinais telefônicos.
Em alguns relatos, o tom é quase testamentário: “Acho que meus amigos morreram lá dentro… Muitas pessoas estavam prestes a morrer, senhorita, chame uma ambulância”. Outro interlocutor confessa: “Quase morri no Constellation. Acho que me queimaram. O Constellation está totalmente queimado”. Essas frases, repetidas em variações, compõem um mosaico de pânico que os investigadores agora cotejam com os primeiros relatórios de campo.
Ao mesmo tempo, as gravações mostram o início do mecanismo de coordenação: através da central, as equipes de resgate foram acionadas e começaram a se articular. “Estou no incêndio em Crans-Montana“, relata um dos primeiros socorristas no local. “Primeiro balanço: três queimados graves”, acrescenta outro. Esse entrelaçar de chamadas civis e profissionais descreve o deslocamento das forças de socorro sobre um terreno noturno e hostil.
Do ponto de vista estratégico, é como assistir a um movimento decisivo no tabuleiro: informações dispersas convergem para um centro de comando que tenta restabelecer ordem diante de uma ruptura súbita. As gravações divulgadas por BfmTv não apenas registram o drama humano, mas servirão como peça de exame para a investigação em curso, oferecendo pistas sobre a sequência dos fatos, a cronologia das respostas e eventuais falhas de coordenação.
Enquanto as equipes forenses trabalham e as autoridades apuram responsabilidades, as vozes guardadas nesses áudios permanecem como testemunhos brutos da noite em que o fogo redesenhou, de forma trágica, uma linha invisível de fronteira entre a vida e a morte em Crans-Montana.
Marco Severini, Espresso Italia — Análise e relato direto dos arquivos divulgados.






















