Por Marco Severini — Um ataque a tiros em um edifício residencial de Moscou deixou ferido o número dois da intelligence militar russa, identificado como Vladimir Alekseyev. A Rússia qualificou o episódio como um “ato terrorista” atribuído à Ucrânia, enquanto Kiev, que já reivindicou ações contra oficiais russos no passado, não emitiu comentários até o momento.
Independentemente da autoria, o atentado desnuda uma grave lacuna nas medidas de proteção de um oficial do escalão superior da GRU — uma falha particularmente contundente em um contexto de escalada e de repressão interna que deveria ampliar os alicerces da segurança.
Vice‑chefe do serviço militar, membro da delegação russa nos diálogos trilaterais em Abu Dhabi e sancionado pelo Ocidente, Alekseyev é suspeito de envolvimento no envenenamento com agente nervoso de um desertor russo em Londres e é apontado como curador da rede de influência que circunda a empresa de mercenários Wagner. Foi atingido por disparos no que canais russos describem como o átrio do elevador do prédio onde vivia, na região Noroeste da capital.
O canal Telegram Baza, próximo às forças de segurança, informou que o general está em terapia intensiva em estado grave. Outra fonte influente na mídia local, Mash, detalhou que o autor teria entrado no prédio se fazendo passar por entregador — informação também recolhida pelo jornal Kommersant. Alekseyev sofreu ferimentos no braço, na perna e no peito; sua resistência no local teria impedido que o agressor completasse a execução.
O ministro das Relações Exteriores, Serguei Lavrov, atribuiu a responsabilidade à Ucrânia, afirmando que o objetivo seria sabotar o processo negocial destinado a encerrar um conflito que caminha para seu quinto ano. Do Kremlin, o porta-voz Dmitri Peskov reconheceu que “líderes militares e especialistas de alto nível estão em risco em tempo de guerra”, mas sublinhou que cabe aos serviços de segurança garantir essa proteção.
O presidente Vladimir Putin não comentou publicamente o ataque, apesar de ter compromissos oficiais na mesma jornada; em ocasiões anteriores já havia censurado o FSB por falhas na prevenção de conspirações e atentados.
Para a opinião pública em Moscou, a campanha militar na Ucrânia permanece, em muitos casos, uma realidade distante. Oficialmente discretos, muitos dos responsáveis militares por operações no front não são figuras públicas — alguns moradores do edifício disseram sequer conhecer a identidade do general ferido.
Este não é um caso isolado: desde o início da guerra ocorreram outras tentativas e atentados contra oficiais russos. Em dezembro, a explosão de um carro matou o general Fanil Sarvarov; no mês de abril do ano anterior, um carro‑bomba tirou a vida do general Yaroslav Moskalik em Balashikha, nos arredores de Moscou.
Num sentido estratégico, o episódio representa um movimento decisivo no tabuleiro da segurança interna russa — um lembrete de que a tectônica de poder não se limita a linhas de frente visíveis, mas também passa pelo redesenho de fronteiras invisíveis dentro das próprias capitais. A pergunta que fica, além da identificação dos mandantes, é sobre a capacidade dos serviços de inteligência russos em levantar alicerces efetivos para proteger suas peças de maior valor.






















