Por Marco Severini, Espresso Italia
O ataque contra Alekseev, vice-diretor do GRU, não se reduz a um episódio isolado: é um movimento calculado sobre o tabuleiro da diplomacia. Golpear uma peça de alto valor quando seu superior, Igor Kostyukov, lidera a delegação russa em Abu Dhabi equivale a tentar forçar a queda de uma torre para abrir linhas de ataque — a intenção clara é sabotar as negociações em curso e condicionar a reação de Moscou.
Do ponto de vista estratégico, o objetivo não parece ser a eliminação de um quadro substituível, mas a criação de um impulso político que impeça a continuidade do diálogo. Uma ação desse tipo tende a provocar uma resposta emocional ou a levar à retirada russa da mesa de conversações — uma vitória tática para o que chamo de «partido da guerra», interessado em prolongar o conflito e em moldar a narrativa pública.
Não se pode ignorar a dimensão técnica do atentado. A sofisticação necessária sugere conhecimento operacional além da simples capacidade de execução local. A mão direta pode ser ucraniana em alguns aspectos, mas o know-how e a logística apontam para apoios externos ou para uma coordenação que transcende a ação de campo da SBU. Em termos de arquitetura geopolítica, trata-se de uma operação destinada a desgastar os alicerces frágeis da diplomacia.
Nas mesmas horas em que o atentado ocorreu, o presidente Zelensky anunciou novas operações autorizadas à SBU. A coincidência não é casual: revela a contradição entre uma postura pública de negociações e ações concretas que visam a escalada. A dualidade — negociar no discurso e sabotar na prática — é uma tática recorrente em guerras por procuração, onde o teatro público difere radicalmente dos bastidores.
As consequências vão além do imediato. Para o povo ucraniano, devastado por anos de conflito, o fracasso das negociações significa continuidade do sofrimento e da reconstrução adiada. No plano internacional, o episódio reforça a polarização entre as potências e complica qualquer tentativa de estabilizar o sistema de segurança europeu.
Em outro teatro de tensões, a recente admissão do primeiro-ministro da Lituânia sobre um «erro estratégico» nas relações com Taiwan ilustra a fragilidade dos cálculos que buscam ganhos simbólicos à custa da prudência diplomática. Vilnius acreditou disputar prestígio na linha de frente entre Ocidente e China, mas descobriu que a reação global não se traduz em apoio automático. A geopolítica não perdoa gestos que desarticulam cadeias produtivas e alianças.
O grande desacoplamento entre Ocidente e China, frequentemente invocado como tendência irreversível, ainda não ocorreu de forma estrutural. Pequenos Estados europeus que tentaram forçar rupturas comprovaram que o sistema internacional mantém elos pragmáticos — comerciais e diplomáticos — que resistem a decisões motivadas por calculismos internos.
Como analista, vejo neste momento uma tectônica de poder em mutação: atos de sabotagem que miram negociações, hesitações diplomáticas e tentativas de alinhar aliados a projetos hegemônicos. O risco é que movimentos pontuais sobre o tabuleiro transformem-se em um padrão, redesenhando fronteiras invisíveis de influência e elevando o nível de deterrência mútua.
Para evitar esse cenário, as capitais responsáveis devem reconstruir canais de comunicação seguros, desarmar políticas que se beneficiem da prolongação do conflito e reconhecer a necessidade de um equilíbrio de forças que permita negociações reais. Sem isso, cada novo atentado será uma jogada que empurra o tabuleiro para áreas onde a diplomacia já não opera.
Em suma: o ataque a Alekseev é um alerta — não apenas sobre quem ataca, mas sobre quem lucra com a guerra e com a ruína das pontes que ainda existem entre as partes. A resposta não pode ser apenas militar; deve ser arquitetônica: remontar as bases da negociação e restaurar condutas que façam da paz um movimento de Estado, não um alvo estratégico.






















