Por Marco Severini — Em um novo ataque russo dirigido às infraestruturas energéticas da Ucrânia, o operador estatal Ukrenergo reportou interrupções generalizadas de fornecimento, com cortes de energia emergenciais aplicados em grande parte das regiões do país. A ação foi qualificada pela própria operadora como mais um “ataque massivo” às estruturas da rede elétrica ucraniana e acontece em um momento sensível, logo após um recente acordo de troca de prisioneiros entre Kiev e Moscou.
Segundo comunicado divulgado no canal oficial do operador no Telegram, os danos provocados pelo inimigo forçaram a implementação de racionamentos e desligamentos de emergência. Em pleno inverno, quando as temperaturas permanecem muito abaixo de zero, a consequência imediata é a exposição de centenas de milhares de civis à perda de luz e aquecimento, fragilizando os já tênues alicerces humanos e sociais do conflito.
Paralelamente, a capital russa foi palco de um atentado contra o número dois do serviço de inteligência militar russo, o vice‑chefe do GRU Vladimir Alekseyev, que ficou ferido por disparos de arma de fogo em um edifício residencial. As autoridades russas qualificaram o episódio como um “ato terrorista” atribuído, segundo Moscou, a agentes ucranianos. Kiev não comentou oficialmente o caso.
Relatos de canais próximos às forças de segurança russas indicam que Alekseyev foi atacado no átrio do prédio onde reside, com a pessoa que se aproximou fingindo ser um entregador. O general teria sido atingido no braço, na perna e no peito, e, segundo as primeiras informações, conseguiu resistir o suficiente para impedir a execução. Fontes como o canal Baza relatam que ele está em terapia intensiva em estado grave; outros meios descrevem o cenário do ataque com detalhes do local.
A figura de Alekseyev é central para compreender o impacto político do atentado: vice‑chefe do GRU, participante ativo nas negociações trilaterais realizadas em Abu Dhabi e alvo de sanções ocidentais, ele já foi apontado por serviços estrangeiros como implicado em operações clandestinas de alta sensibilidade, incluindo o ataque com agente nervoso contra um desertor em Londres e laços com grupos paramilitares. Independentemente da autoria, o episódio expõe uma falha considerável nas medidas de proteção previstas para alguém do seu nível, num contexto de crescente repressão interna e controles ampliados — uma rachadura na fortaleza da segurança russa.
Diplomaticamente, os acontecimentos complexificam o panorama: desde janeiro, Kiev e Moscou realizaram duas rondas de negociações mediadas pelos Estados Unidos em Abu Dhabi, mas sem avanço decisivo sobre a questão territorial — o nó central das conversas. O novo ciclo de ataques às redes energéticas e o atentado em Moscou representam movimentos que redesenham fronteiras invisíveis no tabuleiro da diplomacia, elevando o risco de escalada e reduzindo o espaço de confiança necessário para qualquer compromisso duradouro.
Estratégica e humanamente, o uso de ofensivas contra a infraestrutura crítica funciona como um instrumento de pressão: interromper luz e aquecimento em regiões inteiras é um movimento calculado que visa corroer a resiliência civil e impor custos políticos e sociais. Em termos geopolíticos, trata‑se de uma jogada que procura deslocar o centro de gravidade da disputa, atacando tanto capacidades materiais quanto a percepção de estabilidade.
Na arquitetura global da crise, o episódio mostra a tectônica de poder em transformação — onde medidas de força e operações encobertas coexistem com negociações formais. O desafio, para a comunidade internacional e para os mediadores, é impedir que estes incidentes se convertam em precedentes que normalizem a estratégia de desestabilização sistêmica. O futuro imediato dependerá da capacidade dos atores de reconstruir canais mínimos de segurança e de reduzir as oportunidades para movimentos que, no tabuleiro da grande política, são capazes de desencadear consequências imprevisíveis.






















