Marco Severini — Em um movimento que reverbera como uma jogada decisiva no tabuleiro da tecnologia e da responsabilidade corporativa, Ashley St Clair, influencer de 27 anos e mãe de um dos filhos de Elon Musk, entrou com uma ação judicial contra a empresa de inteligência artificial do bilionário, a xAI. A queixa, protocolada em um tribunal do Estado de Nova York, acusa o chatbot Grok de gerar imagens sexuais falsas usando fotografias da demandante sem seu consentimento.
Segundo os documentos judiciais, no início deste mês o sistema teria criado — ou alterado — pelo menos uma imagem que retratava St Clair de biquíni. A influenciadora afirma ter solicitado formalmente que a xAI evitasse a produção de tais conteúdos, mas que, não obstante o pedido, “innumerevoli contenuti deepfake sessualmente abusivi, intimi e degradanti” foram produzidos e divulgados publicamente por Grok.
A ação torna-se ainda mais grave ao alegar que, em um dos casos, uma fotografia de St Clair tirada quando tinha apenas 14 anos teria sido manipulada pelo sistema para removê‑la de roupas e reprentá‑la sexualizada — uma acusação que, se comprovada, aciona não só o debate sobre privacidade e consentimento, mas também sobre a exploração e a proteção de imagens de menores.
Em reação, a xAI moveu uma ação própria no Texas, argumentando que St Clair violou os termos de serviço ao apresentar a reclamação em Nova York em vez de seguir as cláusulas contratuais que, segundo a empresa, exigiriam resolução em tribunais do Texas. Assim se desenha uma disputa jurisdicional típica: um movimento de defesa que visa transferir o confronto para um foro possivelmente mais favorável — uma manobra frequente no repertório das grandes corporações quando o tabuleiro jurídico esquentar.
Contextualizando: St Clair, conhecida por posições conservadoras e com cerca de 1 milhão de seguidores na plataforma X, teve no ano passado um filho com Musk, batizado Romulus. O empresário manifestou a intenção de buscar a custódia exclusiva após publicamente criticar postagens anteriores da mãe que eram desfavoráveis a pessoas transgender. Musk, por sua vez, é figura conhecida por posições críticas aos direitos trans e por um discurso pronatalista; é pai de pelo menos 14 filhos com mulheres diferentes, tendo um deles que se identificou como transgênero.
As implicações deste litígio ultrapassam a esfera pessoal: tratam-se de precedentes em formação sobre responsabilidade por conteúdo gerado por IA, limites do consentimento digital e os mecanismos de moderação — ou falhas deles — dentro de plataformas que empregam modelos generativos. A acusação de que um sistema automático teria manipulado imagens de uma pessoa menor de idade, por exemplo, pode mobilizar normas penais e civis com potencial de redefinir a arquitetura jurídica aplicada à inteligência artificial.
Do ponto de vista estratégico, estamos diante de um confronto que articula tecnologia, poder econômico e direito — um pequeno redesenho das fronteiras invisíveis entre responsabilidade corporativa e proteção individual. Assim como em uma partida de xadrez, cada movimento legal agora ameaça desencadear respostas táticas: contestação de foro, pedidos de liminares, perícias técnicas sobre os algoritmos e intensificação do escrutínio público sobre políticas de moderação.
Enquanto o processo avança, caberá aos tribunais — e, em última instância, à regulação — definir se as empresas que operam modelos generativos serão tratadas como meras ferramentas ou como agentes com obrigação proativa de proteção contra danos. É um momento em que os alicerces frágeis da diplomacia tecnológica e da governança digital serão testados.
















