Por Marco Severini — Espresso Italia. Em termos estratégicos, o Irã hoje dispõe de um conjunto militar que opera como um tabuleiro de xadrez com múltiplas camadas de influência. Em números brutos, o país mantém um efetivo regular estimado em pelo menos 600.000 homens — entre os quais quase 200.000 pertencem às Guardas da Revolução (Pasdaran) — e cerca de 37.000 na força aérea. Além disso, existem contingentes de reservistas avaliados em torno de 200.000, enquanto estimativas mais recentes do International Institute for Strategic Studies (IISS) elevam esse número para cerca de 350.000.
Se todos esses elementos fossem mobilizados simultaneamente, o Irã poderia reunir, entre militares ativos e reservistas, praticamente um milhão de pessoas aptas a serem empregadas na linha de frente, sustentando um arsenal multifacetado que inclui mísseis, drones, sottomarini e plataformas navais e terrestres variadas.
Na avaliação do tabuleiro estratégico, a força aérea constitui o ponto mais frágil da arquitetura defensiva iraniana. Os analistas apontam para uma frota limitada, com cerca de 250 aeronaves de combate operacionais, em grande parte provenientes de gerações anteriores à Revolução de 1979 — exemplificadas por modelos como o F-4 Phantom e o F-14 Tomcat. O recente abate de um Su-24 de fabricação russa em operações na região serviu para corroborar a percepção de uma aviação envelhecida e sujeita a limitações operacionais.
Em contrapartida, a Marinha iraniana apresenta sinais claros de modernização e capacidade projetiva. Segundo o Global Firepower Report, a marinha conta com cerca de 18.500 militares e mais de 100 unidades navais, incluindo fragatas, corvetas e embarcações de ataque rápido que lhe permitem controlar áreas críticas do Golfo e do estreito de Ormuz.
Outro eixo relevante é a componente submersa: a frota de sottomarini foi ampliada ao longo dos anos para algo em torno de 30 unidades, algumas adquiridas da Rússia. Segundo a Nuclear Threat Initiative, nenhum desses submarinos possui propulsão ou armamento nuclear, mas desde 2018 houve um emprego sistemático de submersíveis e de sistemas navais de ataque em ações regionais, inclusive por meio de forças proxy, como os Houthi.
No espectro das armas não-tripuladas, o Irã desenvolveu e multiplicou famílias de drones — com destaque para os modelos Ababil, Shahed e Mohajer — usados tanto em operações nacionais quanto transferidos a aliados. Os modelos Shahed ganharam notoriedade internacional ao serem empregados também por terceiros em teatros como a Ucrânia; alguns desses sistemas têm alcance declarado que pode chegar a 2.500 km, o que altera significativamente a geometria de risco na região.
Finalmente, um dos pilares estratégicos do país permanece nas chamadas “cidades de mísseis”: depósitos subterrâneos que guardam um estoque considerável de projéteis e lançadores. Avaliações do Iran Watch indicavam, após um ciclo de conflito referido como a guerra dos “12 dias”, a existência de pelo menos 1.500 mísseis e cerca de 200 lançadores, números que desde então foram ampliados. A família de mísseis inclui variantes de curto alcance como Shahab 1 e 2, mísseis de médio alcance como Shahab 3, Khorramshahr (1, 2 e 4), Kheibar e Sejjil, além de mísseis de cruzeiro como o Paveh.
Do ponto de vista geopolítico, trata-se de uma estrutura concebida para oferecer dissuasão em profundidade e capacidade de projeção regional — um desenho que reconfigura, com discrição, a tectônica de poder no Golfo e no Levante. Como em uma partida de xadrez entre grandes potências e atores regionais, o Irã não aposta apenas em peças visíveis; constrói alicerces subterrâneos e vetoriais que complicam a tomada de decisão de qualquer adversário.
Este inventário, longe de ser simplesmente numérico, é uma expressão da estratégia iraniana: maximizar efeitos com meios assimétricos e endurecer defesas convencionais onde for possível. A estabilidade regional passa por entender esse tabuleiro com precisão e paciência diplomática — e por calibrar respostas que considerem, ao mesmo tempo, a coerência militar e as linhas de fragilidade política que cercam Teerã.






















