Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha peças importantes no tabuleiro da política internacional, Hillary Clinton compareceu em depoimento à comissão de vigilância da Câmara dos Representantes para tratar do caso Jeffrey Epstein. A ex-secretária de Estado, chamada a responder sobre alegações envolvendo seu marido, o ex-presidente Bill Clinton, afirmou perante a comissão que não dispõe de informações sobre atividades criminosas atribuídas a Epstein e declarou não recordar encontros com o financista. A sessão foi realizada a portas fechadas, porém videoregistrada.
Na mesma intervenção, Hillary Clinton formalizou um pedido explícito: que a comissão ouça, sob juramento, a testemunha Donald Trump, à medida que surgem novas evidências acerca de um suposto esforço de encobrimento por parte do Departamento de Justiça dos EUA. A petição incluiu também a solicitação de emissão de mandado de comparição para Elon Musk.
O caso ganhou nova dimensão após reportagens que apontam lacunas nos arquivos liberados pelo governo. O furo inicial, divulgado pela National Public Radio (NPR), foi confirmado por veículos como New York Times e CNN: faltariam mais de cinquenta páginas aos documentos tornados públicos, relativas a interrogatórios de uma mulher que acusa o presidente Donald Trump de agressão sexual quando ela tinha treze anos. Fontes posteriores elevam esse número para aproximadamente noventa páginas, e alguns arquivos aparentemente catalogados não apareceram na base de dados pública.
Enquanto autoridades europeias abrem inquéritos que já levaram ao breve encarceramento e posterior soltura do ex-príncipe Andrew e ao envolvimento do ex-embaixador britânico Peter Mandelson, em Washington a reação institucional tem sido mais contida. A procuradora-geral Pam Bondi mantém silêncio público, e o próprio Trump insiste em sua versão, afirmando estar “completamente scagionato“.
As repercussões atingem amplos espectros da elite política e acadêmica. O anúncio de que Larry Summers, ex-presidente de Harvard e ex-secretário do Tesouro, deixará seu cargo acadêmico ao final do ano letivo foi atribuído a laços com Epstein. Ao mesmo tempo, o Wall Street Journal traz declarações de Bill Gates, que admitiu ter mantido relações extraconjugais com duas mulheres russas, mas negou qualquer ligação com Epstein, sustentando: “Não cometi nada ilegal”.
A Administração divulgou cerca de três milhões de páginas relacionadas ao caso, mas manteve sob sigilo outros dois milhões e meio — um volume de documentos que, por si só, confirma que o processo continuará a produzir revelações diárias. Frente a esses deslocamentos tectônicos, a comissão de vigilância convocou o ex-presidente Bill Clinton para depor na próxima sexta-feira, em mais um capítulo desta complexa partida diplomática e judicial.
Na leitura geopolítica que pauta minha apreciação: tratam-se de movimentos que testam os alicerces frágeis da confiança pública e redesenham fronteiras invisíveis de responsabilidade entre poder político, justiça e mídia. Cada nova página que emerge ou desaparece é um lance decisivo no tabuleiro, e a estabilidade das instituições depende agora da clareza que venha a ser imposta sobre esses arquivos.






















