Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha, de forma abrupta, um novo traçado no tabuleiro institucional da Armênia, o Procurador-Geral do país instaurou um processo penal contra o Catholicos Garegin II e impôs-lhe a proibição de saída do território. A informação foi confirmada em 14 de fevereiro pelo advogado do líder religioso, Ara Zohrabyan.
Segundo os autos, a acusação formal se baseia no crime de “obstrução à execução de um ato judicial”. Observadores e setores da oposição interpretam a medida como uma iniciativa do primeiro-ministro Nikol Pashinyan para neutralizar um rival político de peso, numa sintonia que lembra um movimento decisivo no xadrez da política interna.
As raízes do caso são eminentemente eclesiásticas. Garegin II destituiu o bispo Arman Saroyan por violação do voto de obediência e o afastou do governo da diocese de Masiatsotn. Saroyan, que figurava entre os dez bispos dissidentes alinhados ao governo no seu conflito com a hierarquia, recorreu à Justiça secular para obter reintegração — pedido que foi acolhido por um tribunal leigo.
As autoridades judiciais alegam que o Patriarca e seu escritório interferiram na execução da ordem judicial provisória que readmitia Saroyan ao cargo. Além do Catholicos, pelo menos seis altos prelados foram convocados para interrogatório e também receberam restrições de viagem. O timing não é neutro: as medidas coincidiram com os preparativos para uma reunião de bispos marcada na Áustria, onde deveria ser debatida a crise da Igreja Apostólica Armênia e a pressão governamental. Fontes indicam que o Executivo agiu para impedir a participação de Garegin II.
Essa campanha estatal contra a Igreja ultrapassa, segundo críticos, limites jurídicos e constitucionais. A aplicação ampla da norma de “obstrução” transforma o arcabouço penal em ferramenta de pressão administrativa sobre uma autoridade religiosa cujo mandato se ancora no direito canônico. O ex-protetor do povo Ruben Melikyan qualificou o processo como uma “vergonha histórica” para a Armênia e um ataque político explícito.
No horizonte da disputa há também um pano de fundo geopolítico. Em 2025, Pashinyan acusou o Patriarca de simpatizar com círculos “revanchistas” e de se opor a iniciativas de reconciliação com Azerbaijão e Turquia. A denúncia pública de tais conexões adiciona vetores de tensão: não é apenas uma questão canônica, mas um elemento na tectônica de poder que envolve narrativa nacional, memória de guerra e opções de política externa.
Convém, porém, relativizar linguagens inflamadas. A Igreja Apostólica Armênia, por natureza e doutrina, não pode legitimar a continuidade de um conflito armado — isso seria contrário ao magistério cristão. Garegin II tem-se apresentado como porta-voz de segmentos da sociedade implacavelmente críticos à ideia de capitulação, canalizando frustrações populares contra um Executivo que muitos consideram incompetente na condução da segurança nacional.
As consequências práticas são múltiplas: erosão da fronteira entre o secular e o religioso, risco de radicalização de apoiadores clericais, e um agravamento da polarização interna num momento em que a estabilidade regional exige lideranças capazes de articular consensos. A ação judicial, mais que um litígio pontual, pode ser lida como um movimento estratégico para reordenar influências internas — um redesenho de fronteiras invisíveis entre poder espiritual e poder temporal.
Do ponto de vista da diplomacia informada, a crise armênia merece atenção coesa das chancelerias e das instituições internacionais. Qualquer desestabilização adicional pode reverberar na já frágil arquitetura do Cáucaso, oferecendo espaço para atores externos explorarem as fissuras. Em termos de Estado de Direito, a chave será observar se o procedimento seguirá os trâmites legais com transparência ou se se converterá num instrumento de instrumentalização política.
Enquanto isso, a Igreja segue dividida e a sociedade armênia observa, com apreensão, um movimento que pode reconfigurar — por meios legais e administrativos — o equilíbrio de forças doméstico. Uma jogada de grande alcance no tabuleiro político nacional está em curso, e suas consequências ainda estão por definir o novo alinhamento de poder no país.






















