Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha, mais uma vez, as fraturas do poder privado, as autoridades francesas divulgaram novos detalhes sobre o apartamento em Paris atribuído ao financista norte-americano Jeffrey Epstein. Segundo reportagens da emissora BfmTv, o imóvel de luxo na Avenue Foch, vistoriado pela polícia em setembro de 2019 após a morte de Epstein em prisão nos Estados Unidos, continha uma decoração inquietante: dezenas de fotografias de mulheres nuas, um crânio humano, um crânio de morsa e até um elefante empalhado.
O que se apresenta como cena de um colecionador excêntrico revela, nas sombras, indícios de uma rede de relações e práticas que agora atraem um novo escrutínio judicial em Paris. O apartamento, com cerca de 800 metros quadrados, abrigava aproximadamente 150 quadros com imagens fotográficas: segundo a apuração, 98 exibiam mulheres e 65 representavam nus completos. As fotografias estavam distribuídas por vários cômodos, inclusive em espaços íntimos como os banheiros, e mostram, em distintos enquadramentos, mulheres à beira-mar, em salas de massagem ou em close de partes íntimas, algumas com o rosto visível.
Do ponto de vista estratégico, trata-se de evidência material que amplia o alcance das investigações, transformando o apartamento num tabuleiro onde se detectam peças e ligações. Em Paris, a procura decidiu abrir, neste mês, novas investigações sobre ramificações locais do caso Epstein. Foram nomeados cinco magistrados: três incumbidos dos possíveis delitos sexuais e dois para apurar aspectos econômicos e financeiros. A constituição dessas equipes reflete a tectônica de poder envolvida — crimes sexuais e fluxos financeiros frequentemente se entrelaçam, exigindo uma abordagem coordenada.
Os documentos recentemente tornados públicos pelo departamento de Justiça dos EUA apontam Paris como um dos palcos regulares da atividade do empresário, que passava várias semanas por ano na capital francesa. Entre as figuras francesas citadas nos papéis, algumas já sofreram repercussões imediatas: o ex-ministro socialista Jack Lang renunciou à presidência do Instituto do Mundo Árabe após as revelações; o diplomata Fabrice Aidan aparece envolvido em possíveis trocas de informações diplomáticas e transações financeiras com Epstein entre 2010 e 2017.
Há ainda investigações preliminares em curso sobre questões financeiras envolvendo a filha de Lang, Caroline, suspeita de “fraude fiscal agravada e branqueamento” relacionada a operações com uma empresa nas Ilhas Virgens. Outros nomes surgem nas comunicações: o agente de modelos Daniel Siad é apontado como possível recrutador de vítimas, e uma queixa foi apresentada contra o maestro Frédéric Chaslin por alegados atos de assédio sexual em 2016.
Como analista, observo que esta fase processual é comparável a um avanço posicional no tabuleiro: trata-se de identificar linhas de conexão — pessoais, financeiras, diplomáticas — e convertê-las em provas que possam sustentar acusações. A Paris administrativa e cultural entrou, involuntariamente, nesse xadrez internacional; agora o desafio é transformar evidências dispersas em peças coerentes de um processo judicial, preservando tanto os direitos das possíveis vítimas quanto a integridade da investigação.
O desvelamento do conteúdo do apartamento serve como lembrete duro sobre como espaços privados podem operar como microcosmos de redes de poder e impunidade. A atuação das autoridades francesas nos próximos meses será decisiva para esclarecer responsabilidades locais e para mapear a extensão do alcance do influente círculo em torno de Epstein.






















