Por Marco Severini — Hoje o mundo testemunha o início do Ano Novo Lunar chinês, marcado pelo ingresso no ciclo do Cavalo de Fogo. A transição zodiacal, que cumpriu o papel de encerrar o período do Serpente, não é apenas rito: trata-se de um movimento de fundo na tectônica de poder cultural e económica, sentido tanto na China continental quanto na vasta diáspora global.
Em termos práticos, a temporada inaugura o chamado Chunyun, a maior migração humana anual do planeta. Centenas de milhões de pessoas mobilizam-se para regressar às suas cidades de origem e reunir-se com familiares — um deslocamento que pressiona toda a infraestrutura de transportes e desenha, por alguns dias, um novo mapa de mobilidade.
O ciclo festivo estende-se por mais de duas semanas e culminará no Festival das Lanternas em 3 de março de 2026. Os primeiros sete dias são feriados oficiais na China, pontuados por eventos públicos, espectáculos, danças e ritos de auspício. Do ponto de vista simbólico, os animais do zodíaco funcionam como mascotes culturais do período. Nesta edição, o Cavalo de Fogo ganhou contornos inusitados: um peluche cujo bico foi costurado ao contrário — transformando um sorriso em expressão melancólica — tornou-se viral e elevou exponencialmente as vendas do ícone.
Paralelamente a essa urgência simbólica, emergiu um fenómeno curioso nas redes: Draco Malfoy, personagem da ficção, foi reapropriado por um jogo linguístico. Em mandarim, “Ma Er Fu” evoca os caracteres para “cavalo” (ma) e “fortuna” (fu), criando uma associação de sorte que se converteu em tendência comercial e cultural nas plataformas de e-commerce e media sociais.
No plano do espectáculo estatal, o grande gala transmitido pela emissora pública CCTV exibiu um salto tecnológico: empresas como Unitree Robotics, MagicLab e Galaxy General apresentaram robôs humanoides capazes de acrobacias complexas, saltos mortais consecutivos e movimentos de grupo coordenados ao lado de artistas humanos. A evolução em termos de estabilidade, velocidade e precisão foi notada pelo público e comentada como evidência de avanços práticos na robótica de entretenimento e, indiretamente, na capacidade industrial e logística que sustenta esta era.
Outro momento digno de análise foi a presença — inédita no palco principal — da Jesus Carmona Dance Company, com dez bailarinos que integraram uma secção dedicada às danças do mundo. O flamenco partilhou espaço com coreografias de etnias chinesas como Hani e Lisu, além de elementos do folclore húngaro. A participação espanhola configura um marco diplomático-cultural: é demonstração de soft power e de como alianças simbólicas se tecem no interior dos eventos de Estado.
Como analista, vejo estes episódios como movimentos em um tabuleiro: símbolos virais, inovações robóticas e convites artísticos funcionam como jogadas que redesenham fronteiras invisíveis de influência cultural e económica. O Ano do Cavalo abre, portanto, uma temporada em que energia e oportunidade caminharão lado a lado com desafios logísticos e narrativas globais reconfiguradas.




















