Por Marco Severini — Enquanto o Irã atravessa o terceiro dia consecutivo de hostilidades e as instalações do poder lidam com o choque dos ataques, a morte de Ali Khamenei nos raid sobre Teerã colocou o regime diante de um dilema histórico: pela segunda vez desde a Revolução de 1979 será escolhida uma nova Guia Suprema. Esse momento definirá o rumo estratégico do país — entre uma postura ideológica intransigente ou um caminho mais pragmático e negociador.
No centro desse cenário de incerteza, destaca-se Ali Larijani, 67 anos, atual chefe do Conselho Supremo de Segurança Nacional (SNSC). Considerado um dos nomes de confiança do falecido Khamenei, Larijani combina uma longa prática política com a habilidade de transitar entre facções rivais do sistema. Sua trajetória o coloca como peça chave para o próximo movimento no tabuleiro de poder iraniano.
De perfil originalmente identificado entre os pragmáticos, Larijani assumiu posições mais duras nos últimos tempos — reflexo da tectônica de poder que se acirrou após os confrontos regionais. Foi ele o primeiro alto funcionário a falar publicamente após os ataques de sábado e também quem desmentiu o presidente americano sobre a suposta intenção de Teerã de buscar negociações imediatas. Essa postura reforça sua imagem de estrategista que mescla lealdade institucional com capacidade de cenário.
Veterano de longa data, Larijani já havia liderado o SNSC duas décadas atrás e retornou ao comando após a breve guerra de 12 dias com Israel em junho. Nos meses recentes, assumiu novamente papel central na diplomacia de segurança: viajou ao Omã, mediador tradicional nas conversações entre Teerã e Washington, e manteve contatos em Moscou para tratar de questões de segurança. Além disso, foi o interlocutor iraniano responsável pelos diálogos com a China que culminaram no acordo de cooperação de 25 anos assinado em 2021.
Nascido em Najaf em 1958, numa família ligada ao clero xiita, Larijani trouxe para sua formação um diploma de doutorado em filosofia e uma educação de caráter relativamente laico. Vários de seus irmãos ocuparam cargos relevantes no establishment, incluindo magistratura e Ministério das Relações Exteriores. Ex-membro das Guardas Revolucionárias (IRGC), foi negociador nuclear entre 2005 e 2007, defendendo o direito iraniano ao desenvolvimento do programa, enquanto lidava com a comunidade internacional.
A escolha da próxima Guia Suprema não será apenas um ato interno: terá impacto direto nas linhas de alinhamento regionais e na resposta iraniana às pressões de Washington e Tel Aviv. Um líder de perfil intransigente poderia acelerar medidas de confronto — levando o país a um conflito de maior amplitude — enquanto uma figura com inclinações pragmáticas abriria, ainda que com cautela, canais para negociações que poderiam estabilizar o teatro estratégico.
Na leitura do tabuleiro geopolítico, a ascensão de Larijani representa um movimento que privilegia experiência institucional e redes diplomáticas consolidadas. Porém, é preciso lembrar que o eixo de influência em Teerã se move em múltiplas camadas: clero, aparato de segurança, facções políticas e interesses regionais. A sucessão será, portanto, um jogo de arquitetura institucional, onde os alicerces frágeis da diplomacia regional podem ser reconstruídos ou abalados.
Em síntese, a morte de Khamenei abriu uma fase de decisão estratégica para o Irã. Se Larijani consolidar-se, veremos um líder que combina conveniência diplomática e firmeza securitária — um perfil adequado para navegar entre a guerra total e a negociação calculada. O mundo observa: cada lance agora poderá redesenhar fronteiras invisíveis e reconfigurar a estabilidade do Oriente Médio.






















