Por Marco Severini — Num movimento que altera a tectônica de poder no Oriente Médio, cresce o mistério em torno do destino do aiatolá Ali Khamenei, a figura que, por 36 anos, personificou a autoridade máxima da República Islâmica do Irã. Informações contraditórias depois de uma nova onda de ataques contra instalações nucleares e centros de comando deixaram líderes regionais e serviços de inteligência em um estado de apreensão calculada, como se uma peça-chave tivesse sido retirada do tabuleiro e ainda se aguardasse para ver se o rei caiu.
As dúvidas sobre a sobrevivência do Guia Supremo já haviam circulado durante o chamado “conflito dos 12 dias”, quando agências começaram a veicular relatos de golpes contra o que é apresentado por Teerã como o inimigo número um: Israel, com apoio americano. O episódio considerado “histórico” — o ataque aéreo dos Estados Unidos às instalações nucleares de Fordow, Natanz e Isfahan, na noite entre 21 e 22 de junho — agravou os rumores, num padrão típico de guerra psicológica e operações de pressão estratégicas.
Relatos não confirmados colocam Khamenei abrigado em um complexo subterrâneo em Levizan, a nordeste de Teerã, ou disperso em uma rede de bunkers que a liderança iraniana manteve como reserva estratégica. Na manhã do ataque mais recente, sua residência teria sido atingida por sete mísseis americanos — uma ação que, se verificada em sua totalidade, representa um movimento decisivo no tabuleiro para desestabilizar a cúpula de comando.
Diante da escalada, representantes oficiais tentaram conter a narrativa: o que foi apresentado como comunicação do ministro das Relações Exteriores, Araghchi, assegurou que “ele ainda está vivo”. Ao mesmo tempo, analistas observam que o esforço de decapitação da liderança não se limitou apenas a infraestruturas nucleares, mas incluiu ataques a altos comandos militares, cientistas nucleares e outras figuras-chave — justamente aqueles elementos que sustentam os alicerces da teocracia.
Nas discussões públicas e nos canais de inteligência circulou a hipótese de que nem mesmo o bunker onde o supremo estaria oculto teria escapado de armas projetadas para perfurar fortificações profundas, como a ogiva gigante conhecida como GBU-57A/B (Massive Ordnance Penetrator): um projétil de aproximadamente 13,6 toneladas com capacidade de atingir dezenas de metros de profundidade. A mera menção de tal arma altera a natureza do confronto: não é apenas um ataque, é um redesenho das fronteiras invisíveis da dissuasão.
Para dissipar dúvidas, o Guia Supremo fez uma breve aparição em vídeo gravado em 26 de junho, onde declarou que a República Islâmica havia “vencido o regime sionista, dando um tapa nos Estados Unidos”. A retórica, tão simbólica quanto operacional, é parte de um esforço de reafirmar autoridade. No entanto, declarações anteriores — como a de 17 de junho do então presidente dos EUA, Donald Trump, que afirmou “sabemos exatamente onde ele se esconde, mas não o eliminaremos, pelo menos por enquanto” — mostram o componente público cuidadosamente orquestrado de uma guerra que se joga também na esfera da percepção.
O pano de fundo doméstico é turbulento. A retomada de grandes protestos no final de 2025, decorrente de um colapso do rial e da repressão subsequente, já havia imposto tensões internas severas à teocracia. Em meio a esse cenário, a nomeação de um sucessor por parte da liderança — apontando para figuras de confiança dentro do aparato militar e político — simboliza uma tentativa de manter continuidade institucional caso a figura central venha a ser desqualificada ou eliminada.
Do ponto de vista da Realpolitik, a incerteza sobre a condição de Ali Khamenei revela um conflito de alta complexidade: há, simultaneamente, operações de precisão e uma guerra de narrativas destinadas a moldar a reação interna e internacional. Se o supremo realmente se encontra entre as vítimas do ataque, as próximas jogadas serão cruciais — a sucessão, a disciplina das Forças e a coesão dos eixos de influência entrarão em teste.
Enquanto se espera por confirmações independentes, é prudente avaliar os acontecimentos com o distanciamento de um analista que mede risco e consequência. A morte ou sobrevivência de um líder como Khamenei não é apenas um fato biográfico: é um ponto de inflexão com impacto estratégico que pode redesenhar alianças e recalibrar projeções de poder na região durante anos.
Continuaremos a monitorar sinais verificáveis, evitando o pêndulo das especulações, porque no tabuleiro da diplomacia o silêncio e a precisão costumam dizer mais do que o rumor mais estridente.






















