Berlim descartou a iniciativa do presidente francês, Emmanuel Macron, para lançar um novo plano de dívida comum europeu — nos moldes dos eurobond — às vésperas do encontro informal dos líderes da União Europeia no castelo de Alden-Biesen, no Limburgo, dedicado à competitividade.
Segundo informações divulgadas por fontes diplomáticas e pela imprensa europeia, o governo do chanceler Friedrich Merz entendeu que a proposta representa um desvio da agenda central do encontro, que, na avaliação alemã, deve priorizar ganhos de produtividade e reformas estruturais no mercado interno. Um alto funcionário do governo alemão, próximo ao chanceler, citado sob condição de anonimato, afirmou que, embora sejam necessários mais investimentos, estes devem ser articulados no âmbito do quadro financeiro plurianual — o orçamento da UE para 2028-2034 — e não por um novo instrumento de dívida conjunta.
Macron, em entrevista concedida a vários meios europeus, reapresentou a ideia de um esquema de empréstimos comuns para financiar projetos estratégicos nas áreas de inteligência artificial, defesa e transição verde, com o argumento de que a Europa precisa de mecanismos que a permitam acompanhar Estados Unidos e China na corrida tecnológica e geopolítica. A proposta procura ser um movimento no tabuleiro que redistribua capacidade de investimento entre capitais nacionais e um fundo europeu comum.
O impasse expõe uma crescente distância política entre Paris e Berlim após divergências em temas centrais como comércio, política industrial e a relação com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. No dossier da competitividade, o chanceler alemão tende a posições mais liberais, apostando no fortalecimento do mercado único e em novos acordos comerciais, enquanto o Palácio do Eliseu promove medidas de maior intervenção pública e protecionismo seletivo.
Em preparação para o encontro, Berlim definiu três prioridades claras: reforçar o mercado único, acelerar a conclusão de acordos comerciais e reduzir a burocracia. Essa linha de ação aproxima o pensamento de Merz — e, por extensão, da política econômica alemã — às posições da primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, mais do que às propostas do presidente francês, indicam fontes europeias.
Do ponto de vista estratégico, o episódio revela algo além de um mero desentendimento técnico sobre financiamento. Trata-se de um redimensionamento dos alicerces da diplomacia e da tática econômica na Europa: um movimento que pode redesenhar fronteiras invisíveis entre soberania fiscal e integração. A recusa alemã aos eurobond retoma um princípio clássico da Realpolitik europeia — prudência financeira como instrumento de poder — e coloca no centro do debate a pergunta sobre até que ponto a União Europeia quer ou pode transformar-se em um ator fiscal comum capaz de competir com as grandes potências.
Na linguagem do tabuleiro, Macron tentou um lance ambicioso para ampliar o alcance estratégico da Europa; Merz respondeu com uma defesa que protege peças centrais do tabuleiro econômico alemão. Resta ver se, nos lobbies e corredores de Bruxelas, haverá espaço para um compromisso que equilibre a necessidade de investimentos massivos com a disciplina orçamentária que Berlim exige.
Em suma, a rejeição alemã não é apenas um «não» técnico: é um movimento na tectônica de poder que molda a capacidade da União Europeia de financiar sua ambição tecnológica e estratégica nos anos vindouros.






















