Por Marco Severini
Em um movimento que altera o tabuleiro diplomático do esporte, a Alemanha anunciou que boicotará a cerimônia de abertura das Paralimpiadi Milano-Cortina 2026. A decisão, comunicada pela federação nacional de esportes para pessoas com deficiência (Deutscher Behindertensportverband – DBS), é reação direta à escolha do International Paralympic Committee (IPC) de admitir competidores da Rússia e da Bielorrússia com direito a símbolos nacionais — bandeira e hino — após a atribuição de seis wild cards a atletas russos e quatro a bielorrussos.
Com este gesto, sobe para nove o número de países que declara boicote à cerimônia: além da Ucrânia e da Alemanha, anunciaram a ausência Estonia, Finlândia, Letônia, Lituânia, Polônia, Países Baixos e República Tcheca. A DBS explica que pretende, com a medida, demonstrar solidariedade à delegação ucraniana e preservar a concentração dos seus atletas, colocando como “prioridade absoluta” as condições competitivas.
O boicote, contudo, não se apresenta como ruptura total: a delegação alemã participará da cerimônia com contribuições audiovisuais pré-gravadas, enquanto a ministra do Esporte, Christiane Schenderlein, não acompanhará a comitiva em Verona. É uma jogada de contenção — simbolicamente distante do desfile, mas presente por meio de comunicação controlada, como uma peça deslocada num xadrez cujas linhas de frente se movem com cautela.
À margem da controvérsia institucional, permanece uma tensão política de maior amplitude. O artigo original do debate aponta que Berlim condena a invasão da Ucrânia, mas não publicou manifestação sobre a presença de atletas israelenses — país que, segundo críticas internacionais, conduziu operações militares intensas contra palestinos em Gaza e na Cisjordânia ao longo dos últimos dois anos. Essa omissão revela os alicerces frágeis da diplomacia esportiva diante de crises humanitárias concorrentes: a tectônica de poder impõe escolhas que se concentram em certos teatros e poupam outros.
Quanto aos atletas readmitidos, a delegação russa competirá com nomes conhecidos: no esqui alpino, o veterano Aleksey Bugayev e Varvara Voronchikhina; no esqui cross-country, Ivan Golubkov e Anastasia Bagiyan acompanhada do guia Sergey Sinyakin; e no snowboard, Dmitry Fadeyev e Philipp Shebbo. A Bielorrússia será representada por Valentina Birilo, Lidiya Loban, Darya Fedkovich e Roman Sviridenko, todos no esqui cross-country.
Do ponto de vista da estratégia internacional, esta decisão do IPC cria um precedente: reintegrar atletas com símbolos nacionais tende a relativizar sanções culturais e esportivas previamente aplicadas em resposta a agressões externas. Para atores que veem o esporte como extensão da diplomacia suave, trata-se de um movimento decisivo no tabuleiro — capaz de redesenhar linhas de influência e de desencadear novas respostas políticas.
A Ucrânia já havia anunciado que não participaria da cerimônia, qualificando a presença russa como injusta; outras capitais alinhadas com Kiev seguiram sinalizando rupturas simbólicas. Resta agora observar se o gesto alemão, cuidadoso e medido, servirá de catalisador para uma coalizão mais ampla de isolamento simbólico ou se será absorvido pela lógica do regresso operacional de atletas em nome da inclusão esportiva.
Nas próximas horas, a Arena de Verona será palco não apenas de atletas e competições, mas de uma arquitetura diplomática em processo — onde o peso dos simbolismos, mais do que a contagem de medalhas, telefonará de volta às capitais que desenham a geopolítica contemporânea.






















