Por Marco Severini — Em novo episódio que revela as tensões latentes no tabuleiro político norte-americano, o deputado democrata do Texas Al Green foi mais uma vez afastado do plenário da Câmara dos Representantes após exibir um cartaz com a frase “os negros não são macacos”. O protesto é resposta direta a um vídeo compartilhado nas redes sociais pelo ex-presidente Donald Trump, no qual o casal Barack e Michelle Obama foi retratado de maneira ofensiva.
Fora do recinto, Al Green explicou aos jornalistas: “Não pude deixar de levar isso à atenção dele”. Trata-se de um gesto calculado e simbólico, inserido em uma sequência de confrontos que têm por pano de fundo a erosão dos códigos civis de convivência política e o recrudescimento das fraturas identitárias no seio do debate público americano.
No ano anterior, Green já havia sido afastado por interromper o discurso do Estado da União. Na ocasião, levantou-se no corredor e agitou seu bastão na direção do presidente, enquanto este discursava. Agora, o parlamentar clarifica a diferença entre os episódios: “A primeira vez foi um gesto espontâneo. Desta vez foi intencional. Quis garantir que a mensagem chegasse a ele pessoalmente”, disse.
Como analista que observa a dinâmica internacional com olhos de estrategista, vejo neste incidente um movimento que vai além do confronto de personalidade. É um lance sobre o tabuleiro em que se colocam em jogo os alicerces frágeis da diplomacia interna e a percepção pública das instituições. A repercussão não é apenas moral, mas institucional: questiona-se a capacidade do Congresso de manter normas básicas de decoro num contexto de polarização ampliada.
O episódio também ilumina a interação entre comunicação política e plataformas digitais: um conteúdo viralizado por uma figura do establishment pode redesenhar, de forma invisível, zonas de conflito simbólico e reativar memórias históricas traumáticas. Nesse sentido, a manobra de Green é uma tentativa de converter indignação em visibilidade, deslocando o foco para aquilo que considera uma ofensa racial inaceitável.
Para observadores de geopolítica e relações de poder, importa notar que tais confrontos domésticos reverberam externamente. A imagem dos Estados Unidos —como ator que reivindica liderança normativa— sofre quando episódios raciais e de degradação do discurso público ganham manchetes. É um problema de estabilidade política e de credibilidade estratégica.
Em termos práticos, a expulsão de Al Green é um movimento institucional previsível: as cortesias do procedimento parlamentar costumam ser rápidas quando a ordem é perturbada. Mas, em termos simbólicos, o gesto de Green é deliberado e calculado, concebido para marcar um ponto no campo de batalha da opinião pública, um lance que visa impor, ainda que momentaneamente, a narrativa de contraposição ao que qualificou como desumanização.
O caso seguirá como matéria de debate: entre regras de conduta e o ativismo visível, entre a tutela das instituições e a pressão por responsabilização ética de figuras públicas, o conflito aponta para um cenário em que cada peça movida no tabuleiro alterará a configuração de forças domesticas e a percepção externa dos Estados Unidos.






















