Em um movimento que lembra um lance decisivo no tabuleiro político, dezenas de produtores rurais franceses entraram em Paris para protestar contra o possível acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul. Segundo os organizadores, cerca de um “centena” de tratores conseguiram ultrapassar as portas da capital ao amanhecer, embora o Ministério do Interior afirme que a maioria foi detida nos acessos e somente uma vintena circulava pelo centro por volta das 8h.
Apesar das proibições e das tentativas de contenção, manifestantes alcançaram monumentos simbólicos como a Tour Eiffel e o Arco do Triunfo, estendendo sua presença pela Champs-Élysées. O presidente do Coordinamento Rurale, Bertrand Venteau — voz influente do setor rural francês — declarou que os grupos exigem ser recebidos imediatamente pela presidente da Assembleia Nacional e pelo presidente do Senado. A mobilização, cuidadosamente preparada nas últimas semanas, canaliza frustrações acumuladas do campo.
O setor agrícola francês enfrenta hoje uma confluência de crises: a epidemia de dermatose nodular contagiosa que dizima bovinos, a queda no preço do trigo, o aumento dos custos dos adubos e, sobretudo, a perspectiva de concorrência externa ampliada caso a União Europeia ratifique um acordo de livre comércio com quatro países do Sul-americano — Argentina, Brasil, Uruguai e Paraguai — em negociação por 25 anos e agora aparentemente em fase final.
Do ponto de vista geopolítico e estratégico — e assumindo a lente de quem mapeia eixos de influência e custos internos de decisões externas —, o protesto não é apenas um conflito setorial: é uma peça numa partida mais ampla entre política doméstica e compromissos europeus. A assinatura de um tratado com o Mercosul representa um redesenho de fronteiras econômicas invisíveis, cujos alicerces frágeis podem provocar abalos nas bases eleitorais rurais e tensionar o debate sobre soberania e proteção produtiva.
Em termos práticos, o desafio para Paris e para Bruxelas é equacionar interesses: como conciliar a abertura comercial que promete ganhos macroeconômicos com a preservação de um tecido rural que interpreta a globalização como ameaça direta? A resposta exigirá medidas compensatórias concretas e diálogo institucional rápido — caso contrário, o campo poderá transformar manifestações como esta em uma estratégia permanente de pressão.
Como analista que observa o movimento das peças no tabuleiro internacional, registro que a França, país com fortes vínculos simbólicos entre Estado e agricultura, encara um teste de governabilidade. O modo como as autoridades tratarão a crise rural terá efeitos de contágio político em toda a União Europeia, onde outros Estados-membros acompanham a negociação com o Mercosul com reservas e interesse.































