Marco Severini — Um pedido formal dirigido aos mais altos escalões do governo italiano revela um movimento estratégico no tabuleiro da geopolítica: um advogado com profundas ligações aos centros de poder russos solicitou oficialmente tutela preventiva à Itália, alegando uma escalada de pressões e ameaças em Moscou que o levou a temer terminar como Alexei Navalny.
O documento, consultado pela imprensa, foi apresentado por meio do defensor do interessado, o penalista internacional Alexandro Maria Tirelli, presidente das Camere Penali Internazionali. Nele, o reclamante — identificado como Dmitry P. — descreve um histórico profissional de mais de vinte e cinco anos no vértice da advocacia moscovita, período em que atuou no círculo restrito da oligarquia russa e manteve contatos diretos com protagonistas dos setores metalúrgico e energético, pilares da economia política do Kremlin.
Segundo o pedido, essa trajetória conferiu-lhe uma compreensão qualificada dos mecanismos utilizados para contornar sanções e embargo ocidentais: arquiteturas societárias complexas, fluxos financeiros opacos e triangulações jurídicas concebidas para escapar aos controles externos. Tal conhecimento, realça o documento, representa um ativo sensível — um tipo de memória operacional que, em tempos de tensão, transforma seu titular num objetivo de segurança para atores hostis.
A ruptura com interesses vinculados ao entorno governamental russo teria precipitado uma campanha de represálias: pressões institucionais, procedimentos penais que o próprio requerente descreve como instrumentais e uma escalada que, de acordo com sua versão, chegou ao ponto de um atentado contra um de seus colaboradores.
Outro fator que agrava sua exposição é a relação da sociedade a ele vinculada com os direitos de publicação de um livro do autor Viktor Khrolenko, figura conhecida nos círculos do poder pós-soviético. A obra, prevista para lançamento, conteria reconstruções inéditas sobre a ascensão de Vladimir Putin e seu entorno — narrativas que, segundo fontes próximas ao requerente, têm sido sistematicamente silenciadas no espaço público russo.
Daí a decisão estratégica: procurar não apenas a via judicial, mas o amparo político-institucional do Estado anfitrião. O dossiê foi remetido diretamente à premiê Giorgia Meloni e aos ministros da Justiça e do Interior, respectivamente Carlo Nordio e Matteo Piantedosi, numa clara tentativa de obter uma proteção que vá além de medidas consulares ou ordens judiciais, buscando a segurança que só uma intervenção estatal robusta poderia assegurar.
Como analista que observa a tectônica de poder entre Europa e Rússia, é imprescindível ler esse episódio como um movimento de realinhamento: não se trata de um mero refúgio individual, mas de um deslocamento de informação e influência que pode redesenhar fronteiras invisíveis. A presença, em solo europeu, de quem detém conhecimento operacional sobre esquemas de elisão de sanções altera equilibrios e exige escolhas diplomáticas cuidadosas por parte de Roma.
O caso remete, por fim, a iniciativas anteriores de proteção a advogados e dissidentes — como a operação ‘Free Volga’ — e coloca a Itália numa encruzilhada: equilibrar obrigações humanitárias e legais com possíveis repercussões nas relações bilaterais com Moscou. No tabuleiro global, esta é uma jogada que pode ter reflexos duradouros, tanto na segurança individual do requerente quanto na posição estratégica do país que decide abrigá-lo.
Palavras-chave: Dmitry P., oligarquia, Itália, tutela preventiva, Navalny, sanções, Putin.






















