Em um movimento que redesenha, de forma sutil, a cartografia estratégica do Ártico, o presidente Donald Trump afirma ter fechado com a NATO um quadro de entendimento sobre a Groenlândia que, segundo ele, preserva a soberania nacional da ilha enquanto autoriza uma presença ampliada dos EUA com novas bases militares, direitos minerários e um plano de investimentos estratégicos para a região.
Apresentado por Trump como um “acordo extremamente vantajoso para os Estados Unidos e para todas as nações da Aliança”, o quadro — ainda em fase de operacionalização — teria sido delineado em conjunto com o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, e será levado adiante por uma equipe que terá à frente o vice-presidente J.D. Vance, o secretário de Estado Marco Rubio e o enviado especial Steve Witkoff.
Na narrativa oficial do presidente, está claro o objetivo: assegurar para os EUA uma nova linha de defesa avançada no Atlântico-Norte, ao mesmo tempo em que se estabelece um regime de exploração de recursos e investimentos que favoreçam a presença americana no Ártico. Trump declarou, com a serenidade típica do barganhador, que “conseguimos tudo o que queríamos sobre a Groenlândia”.
Do lado da NATO, Rutte valorizou a objetividade do interlocutor: “ele vai direto ao ponto”, disse, confirmando a existência de um quadro de entendimento sem, contudo, divulgar pormenores. Segundo o comunicado conjunto, a preocupação central é a segurança do Ártico, uma zona que, na visão de Washington e da Aliança, está cada vez mais sensível à ação tanto do estabelecimento militar russo quanto ao avanço econômico e tecnológico da China.
Fontes internas mencionam três pilares que estruturariam o acordo: 1) o reforço da presença militar dos EUA na Groenlândia com potencial para novas instalações e áreas operacionais; 2) um pacote de investimentos de natureza militar e estratégica para suportar logística e infraestrutura; 3) a concessão de direitos minerários que assegurariam aos investidores norte-americanos acesso a recursos críticos.
Essa arquitetura do entendimento, se confirmada, desenharia uma espécie de “primeira linha de defesa” americana no Atlântico setentrional, cujo alicerce econômico e militar beneficiaria prioritariamente os EUA, segundo relatos relacionados ao Fórum Econômico de Davos 2026. A tensão diplomática, porém, permanece: representantes groenlandeses e dinamarqueses reagiram com ceticismo e repúdio.
Aaja Chemnitz, membro groenlandês do parlamento dinamarquês, classificou as declarações de Trump como “completamente absurdas” e ressaltou que a NATO não tem mandato para negociar acordos sobre a Groenlândia sem o consentimento dos groenlandeses. Essa resistência expõe a fragilidade dos alicerces políticos em torno de decisões que, embora apresentadas como técnicas, tocarão em sensibilidades nacionais e identitárias.
Do ponto de vista estratégico, estamos perante um movimento que lembra uma jogada de xadrez de alto risco: ganha-se espaço e tempo, mas cria-se ao mesmo tempo uma configuração na qual as tensões diplomáticas e os interesses locais podem minar a estabilidade buscada. A Groenlândia, territorialmente vinculada à Dinamarca, vê-se no centro de um redesenho invisível de fronteiras de influência — um novo teatro onde arquitetura militar, interesses econômicos e soberania nacional disputam posições.
Nos próximos dias, segundo Washington, começarão as negociações operativas. Será essencial acompanhar não apenas o calendário das obras e investimentos anunciados, mas também o grau de inclusão das autoridades groenlandesas e dinamarquesas nesse processo: sem essa legitimidade, qualquer estrutura erguida correrá o risco de se tornar um pilar frágil dentro da tectônica de poder do Ártico.
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