Abu Dhabi serviu mais uma vez como palco de um movimento diplomático de alto risco, mas de ganhos limitados. Na segunda rodada de negociações trilaterais entre Ucrânia, Rússia e Estados Unidos, o único acordo concreto anunciado foi a troca de 314 prisioneiros, a primeira desde há cinco meses. A delegação americana, por intermédio do enviado especial Steve Witkoff, confirmou o pacto, que foi formalizado ao término das conversações.
Segundo a dinâmica inaugurada na primeira sessão de 23-24 de janeiro, os encontros em Abu Dhabi mantiveram uma geometria variável: consultas preliminares a três, trabalho em grupos especializados e reintegração das posições em formato trilateral. Esse desenho permitiu avanços técnicos, mas não solucionou os pontos cruciais do conflito.
Fontes ucranianas citadas pela imprensa local, entre elas RBC-Ucrânia, apontam progressos limitados em temas militares: foram discutidos mecanismos de monitoramento do cessar-fogo e propostas para a criação de um centro de coordenação que supervisione a implementação de tais mecanismos. Todavia, o eixo político do impasse — a disputa territorial — permaneceu intocado. Moscou insiste em reivindicações extensivas sobre o Donbass, incluindo áreas que não estão sob seu controle, postura que inviabiliza uma resolução abrangente na mesa de negociações.
Em tom contido, Witkoff reconheceu que não houve a «virada» esperada, mas sublinhou que iniciativas pontuais demonstram que o esforço diplomático contínuo produz resultados tangíveis e mantém canais abertos. «Embora haja ainda muito trabalho a ser feito, iniciativas como esta demonstram que o engajamento diplomático constante está produzindo resultados tangíveis», escreveu o enviado americano, acrescentando que as discussões prosseguirão e que se prevêem avanços nas próximas semanas.
Da capital ucraniana, o presidente Volodymyr Zelensky qualificou os diálogos como «não simples» e pediu maior celeridade nos resultados. Zelensky enfatizou dois princípios estratégicos que para Kiev são inegociáveis: que a Rússia não seja premiada por sua agressão e que a Ucrânia obtenha garantias tangíveis de segurança. Essa linha reafirma a condição de que qualquer concessão territorial deve estar acompanhada de salvaguardas firmes, críveis e verificáveis.
Como analista com perspectiva geopolítica, vejo esse episódio como um movimento no tabuleiro onde peças importantes mudam de posição, mas o jogo estratégico permanece sem solução. A troca de prisioneiros é um ganho humanitário relevante — um alívio para famílias e uma demonstração de canais funcionantes —, mas não altera os alicerces frágeis da diplomacia sobre os quais repousa uma paz duradoura. A disputa territorial e as garantias de segurança são as casas fundamentais desse tabuleiro: até que se avance nelas, qualquer série de acordos técnicos seguirá sendo paliativa.
Nos próximos lances, será decisivo observar se as conversas técnicas sobre monitoramento do cessar-fogo e o centro de coordenação evoluirão para mecanismos verificáveis e imparciais. Sem isso, o risco é que se reproduzam «acordos de contenção» que apenas adiem uma nova escalada. A tectônica de poder entre Moscou, Kiev e Washington continuará a modelar os próximos episódios; a diplomacia, por sua vez, precisa converter pequenos ganhos táticos em garantias estratégicas.
Em suma: Abu Dhabi confirmou que a comunicação entre as partes não está interrompida — é um sinal útil —, mas ainda falta a carta decisiva que redesenhe, mesmo que temporariamente, as fronteiras invisíveis do conflito.






















