Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha, ainda que provisoriamente, as linhas do tabuleiro diplomático, delegações da Rússia, da Ucrânia e dos EUA voltaram a se reunir hoje em Abu Dhabi para o segundo dia de conversações sobre o plano de paz promovido pelo presidente Donald Trump. O encontro, parte de uma rodada programada para dois dias, prossegue depois do primeiro contato direto entre oficiais ucranianos e russos ocorrido na sexta-feira.
O chefe da delegação ucraniana, Rustem Umerov, declarou que as discussões iniciais se concentraram nos “parâmetros para pôr fim à guerra russa e na lógica futura do processo negocial”. A formulação resume o cerne do dilema: buscar regras de término do conflito que sejam aceitáveis no terreno e viáveis politicamente na praça pública — um delicado equilíbrio entre realpolitik e legitimidade.
A versão inicial do rascunho estadunidense suscitou críticas em Kiev e em capitais europeias por apresentar aproximações às posições russas; subsequentes iterações do documento, por sua vez, encontraram resistência moscovita, em especial quanto à presença proposta de forças de paz europeias. Assim, as propostas sucessivas funcionam como lancetas testando as fragilidades dos alicerces diplomáticos de cada ator.
Uma questão permanece central e praticamente intransponível: o destino do território no leste do país, o Donbass. Moscou deixou claro que, para encerrar as operações militares, reivindica efetivamente o controle da parte do Donbass que ainda não conseguiu subjugar por meios bélicos. “A posição da Rússia é bem conhecida: a Ucrânia e as forças armadas ucranianas devem sair do território do Donbass”, afirmou o porta-voz do Kremlin, Dmitrij Peskov. Kiev, que ainda mantém sob seu controle cerca de 20% da região, rejeita categoricamente essa condição.
O histórico negocial recente não inspira otimismo: o último encontro direto entre representantes de Moscou e Kiev ocorreu em Istambul no verão passado e resultou apenas em acordos limitados, como a troca de prisioneiros. Em Abu Dhabi, pela primeira vez, as partes discutem abertamente o plano divulgado pela administração Trump, o que eleva a complexidade das conversas — trata-se, em termos cartográficos, de mover peças sobre um tabuleiro cujas fronteiras já foram alteradas pela violência.
Os Emirados Árabes Unidos, por meio de seu Ministério das Relações Exteriores, descrevem as conversações como parte dos esforços contínuos para promover diálogo e buscar soluções políticas para a crise. O itinerário diplomático recente inclui ainda o encontro de Trump com o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky em Davos, e a visita do enviado americano Steve Witkoff ao Kremlin, onde manteve diálogo com Vladimir Putin. Esses contatos ilustram uma tectônica de influência que se estende entre Davos, Moscou e agora Abu Dhabi.
Enquanto os negociadores discutem parâmetros e comprometimentos, a violência no terreno segue corroendo as condições mínimas para a reconstrução política. Ataques russos durante a madrugada entre sábado e domingo deixaram um morto e dezenas de feridos em Kyiv e na cidade nordeste de Kharkiv. A capital permaneceu em alerta aéreo, com relatos de drones e mísseis balísticos sobrevoando áreas urbanas. “Kiev está sob um massivo ataque inimigo. Não abandonem os abrigos!”, escreveu o prefeito Vitali Klitschko em mensagem pelo Telegram.
As autoridades locais reportaram incêndios causados por destroços de drones e danos a infraestruturas essenciais, incluindo sistemas de aquecimento e abastecimento de água, enquanto serviços de emergência trabalham para conter as chamas e socorrer os feridos. Ao mesmo tempo, a tensão militar alimenta a narrativa política: qualquer concessionamento territorial negociado em Abu Dhabi terá de ser validado não apenas nas salas de diálogo, mas também frente ao selo brutal da realidade no terreno.
Do ponto de vista estratégico, essas conversações exemplificam um clássico jogo de xadrez entre grandes potências: movimentações calculadas, tentativas de sacrificar menos peças e, por vezes, a necessidade de aceitar empates táticos para evitar perdas maiores. Se um acordo for alcançado, será menos o produto de um gesto de boa vontade do que o resultado de um cálculo frio sobre custos, sustentabilidade e reconhecimento mútuo de limites. Abu Dhabi, por ora, é o palco desse novo impulso diplomático — um movimento decisivo no tabuleiro cuja eficácia só será mensurada no mapa humano e geopolítico que se seguirá.






















