Ao término do segundo dia de reuniões trilaterais em Abu Dhabi, o quadro diplomático apresenta-se, mais do que avanços concretos, um cenário de estagnação calculada. As delegações de Estados Unidos, Rússia e Ucrânia encerraram as conversas com tom cauteloso: diálogo existe, mas os pontos decisivos permanecem sem solução.
Dois nós definem este impasse. O primeiro é o aspecto territorial, centrado no Donbass, cuja disputa permanece intransigente — Kiev recusa qualquer abandono formal da região enquanto Moscou insiste em novos equilíbrios territoriais. O segundo é a exigência de garantias de segurança para Kiev: Washington e Bruselas são chamados a formalizar salvaguardas contra a ameaça russa, mas a natureza e o alcance dessas garantias são objeto de profunda divergência.
Fontes diplomáticas descrevem o ambiente como “construtivo” apenas na superfície; sob essa cortina, persistem divergências estratégicas. A delegação russa, liderada pelo chefe do serviço de inteligência militar, Igor Kostyukov, reafirmou a necessidade de uma solução política abrangente, ancorada em novos equilíbrios e garantias que Moscou considere credíveis. Para observadores familiarizados com o dossier, o Kremlin vê os acordos como instrumentos para consolidar um resultado estável — e acredita que o tempo e a dinâmica do terreno lhe são favoráveis.
Kiev, por seu turno, fala em ‘‘colóquios construtivos’’ e em parâmetros potenciais para encerrar o conflito, mas evita qualquer sinal de concessões materiais. O receio ucraniano é não sacrificar soberania territorial em nome de promessas de segurança cuja execução dependa de atores externos. Assim, a Ucrânia mantém posições maximalistas que travam a tradução das discussões em passos práticos.
O rascunho inicial apresentado pelos Estados Unidos suscitou críticas tanto em Kiev quanto em capitais europeias, acusado de refletir concessões excessivas às pretensões de Moscou. Em contrapartida, propostas subsequentes encontraram a resistência firme do Kremlin, que rejeitou a hipótese de presença de forças de paz europeias no terreno — um ponto que demonstra como as alternativas de implementação das garantias são parte essencial do impasse.
Ao nível político mais amplo, a cena foi marcada por tensões que extrapolam a mesa de negociações. Em Davos, no Fórum Econômico Mundial, o presidente ucraniano criticou duramente a incapacidade da Europa de transformar diagnóstico em ação, chegando a qualificar a União como ‘‘dividida e perdida’’. Esse tom revela as fissuras nas alianças ocidentais e aumenta a complexidade do tabuleiro diplomático.
Como analista que observa a tectônica de poder internacional, vejo essas sessões em Abu Dhabi como movimentos estratégicos num grande tabuleiro: cada delegação testa limites, mede a resistência do oponente e procura consolidar alicerces que possam sustentar um acordo futuro. No entanto, até que não haja convergência sobre o tratamento do Donbass e um desenho operacional claro das garantias de segurança, o processo continuará numa zona de contenção — mais estratégico que substancial.
O que resta é o trabalho de diplomacia técnica e de construção de confiança: desenhar mecanismos verificáveis, escalonar compromissos e, sobretudo, reconciliar interesses geopolíticos com as realidades sobre o terreno. Sem isso, Abu Dhabi será lembrada como mais um capítulo da longa série de negociações onde os movimentos são estudados, mas as jogadas decisivas permanecem por ser feitas.






















