Por Marco Severini, Espresso Italia. Enquanto se prepara um novo encontro trilateral entre Ucrânia, Rússia e Estados Unidos em Abu Dhabi, marcado para os dias 4 e 5 de fevereiro, o teatro de operações no solo não dá sinais de abrandamento. A diplomacia desenha movimentos no tabuleiro internacional; nas linhas de frente, os ataques continuam a custar vidas e a corroer os frágeis alicerces da estabilidade.
O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, descreveu como um “crime eloquente” o ataque de um drone russo a um ônibus que transportava mineiros na região de Dnipro, incidente que deixou 15 mortos e vários feridos. Em sua publicação na plataforma X, Zelensky afirmou que “o mal deve ser detido” e confirmou o acordo para a reunião trilateral nos Emirados Árabes Unidos, sublinhando que fevereiro será um período de intensa atividade de política externa.
Do ponto de vista ucraniano, a expectativa repousa sobretudo sobre a capacidade dos Estados Unidos de traduzir influência em medidas concretas para a desescalada e redução dos ataques. “Muito dependerá do que os americanos conseguirem alcançar”, afirmou a presidência, na tentativa de desenhar confiança tanto no processo quanto no eventual resultado.
No terreno, a violência acarretou mais vítimas. O governador local, Oleksandr Ganzha, informou via Telegram que mais duas pessoas — um homem e uma mulher — morreram em Dnipro após ataque com drones que provocou incêndio, destruiu uma casa e danificou outras residências e um veículo. Em Zaporizhzhia, um raid atingiu uma clínica obstétrica no sul do país, deixando pelo menos seis feridos e imagens que mostram salas de atendimento devastadas, janelas estilhaçadas e mobiliário destruído.
Os impactos infraestruturais também seguem ampliando a crise humanitária. Recentes ataques afetaram a rede elétrica de Nikopol e Marhanets, atingiram ferrovias na região de Dnipro e operações ferroviárias em Sumy. Em Kiev, as autoridades trabalham para aumentar a cogeração elétrica e distribuir kits térmicos — cerca de cinco mil por dia no momento — numa tentativa de mitigar a perda de aquecimento que já deixou mais de 500 condomínios sem calefação.
No plano retórico e diplomático, o ministro das Relações Exteriores russo, Sergey Lavrov, acusou a Europa de tentar semear divisões entre Rússia e Estados Unidos, segundo agências russas. Trata-se de mais um movimento na guerra de narrativas que acompanha o conflito armado, onde mapas de influência se redesenham tanto em cinturões de segurança quanto nos corredores das capitais.
Como analista, vejo este momento como uma jogada complexa no tabuleiro geopolítico: a convocação de Abu Dhabi é um lance que busca criar um espaço de interlocução multilayer — político, militar e humanitário —, mas a persistência dos ataques mostra que a distância entre intenção diplomática e controle operacional segue considerável. A sustentabilidade de qualquer acordo futuro dependerá não apenas de comunicações de alto nível, mas da capacidade de gerar verificações, garantias e mecanismos que imponham custos reais a quem violar cessar-fogos ou atacar civis.
O panorama permanece tenso. A tectônica de poder regional e global reverbera em cada cidade atingida, em cada linha ferroviária danificada e em cada hospital atacado. Abu Dhabi pode oferecer uma mesa de negociação; a pergunta de longa duração é se os participantes terão instrumentos concretos para transformar palavras em segurança palpável nas ruas ucranianas.






















