Em um movimento de alto risco no tabuleiro diplomático, abriu‑se o segundo dia de negociações trilaterais entre EUA, Rússia e Ucrânia em Abu Dhabi. O enviado especial do Kremlin, Kirill Dmitriev, descreveu os contatos como marcados por “passi avanti positivi”, ao mesmo tempo em que lançou um alerta sobre a atuação dos chamados “guerrafondai” do Reino Unido e da União Europeia, que, segundo ele, tentariam minar o processo.
Os pontos concretos em debate são de natureza estratégica: Moscou mantém a reivindicação sobre vastos territórios — Donbass, Crimea, Kherson, Sumy e Zaporizhzhia — e condiciona qualquer acordo ao retrocesso das forças ucranianas das áreas ocupate. A contraposição ucraniana permanece rígida: recusa a ideia de uma cessão unilateral e prefere um congelamento das hostilidades ao longo da linha di fronte atual, com garantias de segurança robustas em caso de violazioni del cessate il fuoco.
Em palco paralelo, Moscou referiu‑se à “formula di Anchorage”, estrutura já evocada em conversas anteriores entre Putin e interlocutores ocidentais, como eixo potencial para desenhar uma saída negociada. A menção indica o retorno a alicerces previamente arquitetados — uma jogada cuidadosa, própria de quem redesenha fronteiras invisíveis no tabuleiro geopolítico.
Dmitriev informou ainda que está em curso uma cooperação ativa com a administração estadunidense para restaurar relações economicas bilaterais, inclusive mediante um grupo de cooperação econômico russo‑americano. Essa dimensão comercial, com seus próprios interesses tectônicos, funciona como um pilar que pode sustentar ou corroer qualquer cessar‑fogo duradouro.
Do lado ocidental, ganha corpo um plano em três fases — um mecanismo de 24 e 72 horas para fazer respeitar um cessate il fuoco, com Estados Unidos e parceiros prontos a ativar medidas de contenção. Moscou vê esse dispositivo como uma espécie de “NATO mascherata”, sinalizando desconfiança diante de arranjos que, na prática, ampliariam a presença e a coordenação ocidental no conflito.
Enquanto o processo de mesa se revela tenso, a violência no terreno não cede: durante a noite, novos ataques russos atingiram a capital ucraniana, com incêndios reportados nos distritos de Obolonskyi, Sviatoshynskyi e Solomianskyi. Este fato lembra que, mesmo quando as peças se movem com cuidado na diplomacia, a frente de batalha mantém seu próprio impulso destrutivo — um lembrete sombrio de que os acordos só têm sentido se traduzidos em segurança real para civili.
Do alto da experiência estratégica, observo que o sucesso dessas negociações depende de dois fatores: a capacidade de transformar propostas táticas em garantias verificáveis e a voluntà politica dos atores externos em não subverter um processo em que há, paradoxalmente, progressos concretos. Se o tabuleiro é agora Abu Dhabi, os alicerces da paz exigiranno contas claras — e resistência disciplinada às pressões que visem reinserir o conflito numa lógica de escalada.
Em suma, o segundo dia em Abu Dhabi confirma um movimento lento mas percebido como positivo por Moscou, ao mesmo tempo em que expõe as fragilidades do processo perante intervenções externas. Se as peças avançam, devem fazê‑lo com regras claras; caso contrário, voltaremos ao ponto inicial: mais ruído estratégico e menos garantias tangíveis para os civili no território afetado.






















