Por Marco Severini — Em Abu Dhabi desenha-se um quadro de negociações que, embora importantes, não prometem espetáculos públicos. O que ali se articula é um processo em múltiplas camadas, calibrado para reduzir riscos e preservar opções, mais do que para conseguir aplausos ou manchetes instantâneas. É um movimento próprio da diplomacia de alto tabuleiro: calculado, lento, consciente dos custos irreversíveis de um lance precipitado.
O encontro é, portanto, um cantiere técnico e prático. O único subgrupo plenamente funcional tem sido o humanitário. Trocas de prisioneiros, evacuações de civis e coordenação logística constituem o núcleo concreto da ação diplomática: tarefas invisíveis ao público, mas vitais para manter canais e medir a boa-fé das partes. Não é gesto simbólico; é sustentação material da confiança mínima necessária para qualquer avanço.
No plano militar, os trabalhos são de precisão. O debate não gira apenas sobre onde recuar, mas sobre como organizar uma retirada ordenada: quais unidades recuam primeiro, rotas das colunas, mecanismos de verificação, e proteção de populações civis. Moscou mantém uma posição rígida — exige a retirada ucraniana para além das fronteiras administrativas das regiões agora incorporadas — algo coerente com sua lógica de segurança e com a arquitetura mental de quem prioriza controle territorial.
O grande vazio, contudo, reside no campo político. As negociações de Abu Dhabi ainda não abriram plenamente esse capítulo essencial: segurança regional, desmilitarização, presença de forças estrangeiras, disposições constitucionais ucranianas, uso da língua, e o papel de religiões e investimentos econômicos. A linha russa é clara quanto à rejeição de uma presença da NATO no teatro. Washington, por sua vez, tem sinalizado que a paz na Ucrânia será tratada como um diálogo essencialmente tripartite — EUA, Rússia e Ucrânia — enquanto a segurança europeia volta a ser, prioritariamente, assunto dos europeus. Há, aqui, um reconhecimento prudente dos limites do escalonamento: ninguém busca transformar essa mesa em pretexto para incursão nuclear.
Os tempos serão longos. Não se trata de hesitação, mas de cálculo: o erro tem custo extremamente elevado. Operadores e chancelerias olham já além de 2026, mirando 2027 como horizonte para movimentos mais estruturais. É a batalha contra a improvisação — uma estratégia de desgaste da incerteza onde cada lance é medido como num final de partida de xadrez.
Um outro teatro de conflito, menos convencional, manifesta-se na esfera da informação. O vazamento parcial dos arquivos ligados ao caso Epstein ilustra uma dinâmica de “caos controlado”: volumes massivos de documentos que, sem investigações coordenadas e equipes independentes, geram opacidade e cultivam teorias. As instituições judiciais norte-americanas parecem lentas e seletivas; o efeito político mais visível ocorre em solo europeu, onde a erosão da confiança institucional alimenta realinhamentos discretos.
É aqui que a memória histórica italiana oferece lições. Nossa experiência com máfias, aparatos desviados e a denominada “estratégia da tensão” ensinou que verdades dolorosas costumam emergir gradualmente, após anos de investigações, vítimas e sentenças. Esse passado é um antídoto prudente ao sensacionalismo: lembra que revelar sem estruturar investigação é, muitas vezes, semear ruínas informativas.
Por fim, há o papel da Alemanha e da Europa no redimensionamento do tabuleiro. Berlim, e atores europeus em geral, parecem reorganizar-se no silêncio — ajustando capacidades estratégicas, cadeias logísticas e posturas diplomáticas. Não é um deslocamento dramático, mas uma tectônica de poder que trabalha por camadas: reforço de alicerces, revisão de compromissos e busca de autonomia para gerir a segurança continental sem cair em confrontos diretos.
O diagnóstico é claro e austero: negociações como as de Abu Dhabi não prometem soluções rápidas, mas estabelecem as bases para reduzir riscos. Quem entende de estratégia sabe que, muitas vezes, a vitória do equilíbrio se dá na paciência e na capacidade de manter alternativas abertas — uma lição de xadrez aplicada à geopolítica.






















