Marco Severini — Em um movimento que redesenha, sobre o tabuleiro da política regional, os contornos do futuro da Faixa de Gaza, o genro do presidente norte-americano, o empresário imobiliário Jared Kushner, apresentou na primeira reunião do Board of Peace um ambicioso projeto de reconstrução batizado de Abrahamic Gateway. A proposta combina uma visão urbanística, propostas de segurança e um corredor econômico transregional que conecta Gaza a Israel, Egito, Jordânia, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos.
Segundo a apresentação — ilustrada por slides e mapas — Kushner afirma que a limpeza dos escombros e a reconstrução de pontos urbanos estratégicos poderão ser concluídas em cerca de três anos, com a cidade de Rafah sendo reconstruída e integrada a uma chamada “autostrada abramítica“. No horizonte de uma década, a proposta prevê que a Gaza se torne “autogovernada”, com indústrias, emprego pleno e habitação universal. Um detalhe perturbador e decisivo: a proposta explicita que essa autogovernança não seria exercida por representantes palestinos.
O plano, conforme descrito, também inclui uma arquitetura de segurança robusta — a proposta circulada em meios próximos ao Board fala de uma força policial local de 12 mil agentes e de um contingente militar internacional de 20 mil soldados vindos de cinco países, além de financiamentos significativos dos Estados Unidos (a apresentação e reportagens vinculam números próximos a US$ 10 bilhões e estimativas de investimento que, em estudos anteriores, chegaram à ordem de US$ 70 bilhões para toda a reconstrução da faixa).
Mais ainda: constam entre as proiectações a instalação de uma base com capacidade para 5.000 contingentes no sul de Gaza, numa área estimada em 1,4 km² — um movimento que simbolizaria não apenas presença logística, mas um reforço do eixo de influência EUA-Israel na região. O mecanismo de governança proposto ficaria, formalmente, sob a égide do Board of Peace, que se atribui papel de supervisão inclusive sobre organismos multilaterais.
Do ponto de vista geopolítico, a iniciativa é herdeira de concepções delineadas anos antes: o esboço recorda projetos e estudos como o do “Institute for Zionist Strategies” de 2017, traduzindo-os agora numa proposta operacional, com cronogramas e metas palpáveis. A ambição do plano é transformadora: transformar a Faixa de Gaza em um hub comercial com ramificações até a Índia e Europa, numa espécie de corredor económico sob nova arquitetura de alianças.
Como analista que acompanha a tectônica de poder no Oriente Médio, digo que o projeto funciona como um lance estratégico no tabuleiro: oferece incentivos econômicos e infra-estruturais em troca de um redesenho da governabilidade e da presença política. A proposta, no entanto, levanta perguntas essenciais sobre legitimidade, soberania e sustentabilidade política — sobretudo quando a autogovernança é proposta excluindo atores palestinos tradicionais.
Os alicerces dessa iniciativa tocarão, inevitavelmente, a sensibilidade das capitais regionais e das organizações internacionais. Se implementado, o Abrahamic Gateway poderia redesenhar fronteiras invisíveis de influência e economia. Resta saber se o itinerário militar, econômico e educacional sugerido — incluindo reformas curriculares orientadas para “tolerância, dignidade e paz” — conseguirá produzir coesão social sem abordar a raiz política do conflito.
Eu, Marco Severini, acompanho este movimento com a prudência de quem conhece as jogadas lentas e decisivas do grande tabuleiro diplomático: planos grandiosos podem criar pontes, mas também constroem muralhas se não incorporarem os atores de legitimidade local. A proposta será agora objeto de debates políticos, técnicos e estratégicos, com consequências que poderão reverberar por décadas.
Contexto adicional: o projeto circula em Davos e associa-se a estimativas prévias que apontavam para investimentos na ordem de dezenas de bilhões de dólares, com aporte norte-americano significativo e um plano divisível em quatro fases para os 365 km² da Faixa.






















