Por Marco Severini — Aliados na NATO e parceiros históricos, França e Estados Unidos percorreram nas últimas três décadas um percurso marcado por repetidos **estragos diplomáticos**. Não se trata apenas de episódios episódicos: são movimentos no tabuleiro que expõem tensões estruturais entre soberania nacional, interesses comerciais e o alcance extraterritorial da jurisdição norte-americana.
O episódio mais recente, descrito pela imprensa como a “guerra do champanhe”, simboliza essa dinâmica. Após o anúncio de Emmanuel Macron de não aceitar o convite de Donald Trump para integrar um suposto ‘Board para Gaza’, Washington ameaçou taxas aduaneiras de até 200% sobre o champanhe francês — uma arma comercial com forte carga simbólica e política.
Mas os atritos vêm de longe. No plano político, a rutura mais emblemática foi a oposição de Paris à intervenção no Iraque em 2003. A tensão chegou a gestos simbólicos nos Estados Unidos, como a rebaptização temporária das ‘french fries’ para ‘freedom fries’ em algumas cantinas do Congresso — um episódio menor em expressão, mas significativo em significado: desmontou, por um instante, os alicerces da confiança pública entre os dois polos.
No campo da segurança e da informação, as revelações de Edward Snowden, em 2013, revelaram programas de vigilância da NSA que interceptaram comunicações em solo europeu. As notícias geraram protestos, pedidos de esclarecimento e uma erosão da convicção sobre o uso responsável das capacidades de inteligência por parte do parceiro mais poderoso.
Na seara econômico-financeira, a tensão repetidamente se concentra na força da jurisdição americana. Em 2014, o acordo e as multas aplicadas ao BNP Paribas por violações às sanções americanas foram um sinal claro: instituições e empresas europeias operam sob o risco de regras extraterritoriais que podem redesenhar responsabilidades e custos. Similarmente, disputas comerciais multilaterais — incluindo litígios entre Airbus e Boeing e a controvérsia sobre a taxa digital francesa — mostraram que tarifas e represálias são ferramentas habituais de persuasão.
O padrão que emerge é uma combinação de divergência estratégica e instrumentos práticos: política externa distinta, regulação econômica com efeitos globais e mecanismos judiciais que atravessam fronteiras. Trata-se não de rupturas definitivas, mas de ciclos de atrito que testam a resiliência do eixo transatlântico.
Para um analista que pensa em termos de xadrez e arquitetura diplomática, as partidas entre Paris e Washington são jogadas nas margens da ordem internacional: às vezes uma abertura calma, outras vezes um sacrifício de peça para consolidar posição interna. A estabilidade do relacionamento exige que ambos os lados reconheçam a interdependência sem confundir autonomia com isolamento.
O desafio imediato é transformar esses incidentes em reformas institucionais: limitar efeitos indevidos da extraterritorialidade, criar mecanismos mais transparentes de consulta sobre medidas comerciais e fortalecer fóruns multilaterais que reduzam a lógica bilateral de retaliações. Sem isso, os movimentos no tabuleiro continuarão a gerar fraturas que, embora não derrubem a aliança, fragilizam seus alicerces.






















