Por Aurora Bellini — Em um fim de semana que promete iluminar novos caminhos para os grandes fermentados italianos, a 18ª edição da Fiera nazionale del Panettone e del Pandoro ocupou os salões do Hotel Colombo, em Roma. A mostra, já consolidada entre aficionados e profissionais, reuniu cerca de vinte artesãos selecionados de todo o país — da Puglia à Lombardia —, todos comprometidos com o uso do fermento madre e técnicas tradicionais de produção.
Na curadoria do evento, o presidente Emanuele Giordano destacou critérios rígidos de seleção: a prioridade é preservar a cadeia de valor artesanal e o respeito à fermentação natural. Essa escolha reafirma um compromisso com a autenticidade que, ao mesmo tempo, deseja semear inovação no paladar do público.
O fio condutor desta edição foi a paz: o prêmio simbólico “Panettone for Peace” foi criado para promover encontros e pontes por meio da gastronomia. A competição seguiu um formato inteiramente anônimo — os mestres expondo suas criações sem identificação — e os visitantes puderam provar e votar em seus preferidos por meio de um QR code, assegurando uma escolha guiada exclusivamente pelo gosto.
Ao lado da mensagem de concórdia, houve uma aposta clara na destacionalização do produto. A organização anunciou uma nova iniciativa — a futura edição batizada de Panettone di San Valentino — onde pâtissiers desenvolverão versões pensadas para a festa dos enamorados, sinalizando a intenção de tornar o panettone uma presença anual, não apenas natalina.
Essa estratégia amplia um movimento já em curso: depois do projeto de verão Pop Panettone — que levou degustações a contextos como aperitivos e cafés da manhã salgados —, a feira reafirma o objetivo de integrar o panettone em diferentes momentos do dia e das estações. O fenômeno mais visível dessa transformação é o crescimento dos panettoni salati, cuja procura vem se aproximando, em volume de demandas, dos clássicos doces. É um claro indício da curiosidade do público e da capacidade de reinvenção da confeitaria italiana.
O percurso de degustação oferecido pela mostra foi generoso e surpreendente: da tradição às experimentações mais audazes. Entre os nomes que homenagearam a história do produto, sobressaíram-se mestres como Alessandro Slama, vindo de Ischia e reconhecido pela excelência em panettones clássicos, e a casa Obliato, celebrada por seus fermentados que preservam um sabor profundo e ancorado na tradição. Ao mesmo tempo, talentos regionais apresentaram releituras que conversam com paladares contemporâneos e hábitos alimentares fora do calendário natalino.
Como curadora e voz da La Via Italia, vejo nesta edição um convite para tecer laços sociais através da mesa: a feira não só preserva técnicas e memórias gustativas, como também acende possibilidades de mercado e cultura. A aposta na paz e na destacionalização alinha-se com um horizonte límpido, onde gastronomia e responsabilidade social se encontram para construir um legado sustentável.
Ao final do evento, ficou claro que o panettone vive um renascimento cultural — alimentado pela luz da criatividade e pelo respeito às raízes. Se o espírito da feira é cultivar valores, então a 18ª edição já plantou sementes promissoras para que o panettone floresça em novos cenários e estações.

















