Em um momento em que o debate público deveria servir para informar e esclarecer os eleitores italianos no exterior sobre o referendo da Justiça marcado para os dias 22 e 23 de março de 2026, o que se viu foi algo muito diferente: uma declaração que revelou não apenas uma posição política, mas uma preocupante falta de sensibilidade histórica.
Durante o debate, as palavras de Fabio Fasoli, presidente do Comites de Minas Gerais e representante do Movimento Associativo Italiani all’Estero (MAIE Brasil), geraram indignação imediata ao afirmar que descendentes de italianos “não conquistaram nada” ao obter a cidadania italiana, sugerindo que esse direito teria sido simplesmente concedido pelo Estado italiano.
“Vocês não conquistaram nada” — Uma Frase Carregada de Arrogância Histórica
Ao dizer que os descendentes de italianos “não lutaram para conseguir ser italiano” e que deveriam reconhecer o direito à cidadania “de forma clara, humilde e respeitosa”, Fasoli comete um erro que vai além da grosseria: ele apaga a história.
Os italianos que emigraram para o Brasil a partir da segunda metade do século XIX não vieram em busca de aventura. Vieram fugindo da miséria, da fome, das guerras que devastaram o sul e o norte da península itálica recém-unificada. Chegaram ao Brasil sem falar português, sem conhecer o clima, sem qualquer rede de apoio e construíram com as próprias mãos comunidades inteiras no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina, em São Paulo, no Espírito Santo. Plantaram uvas em solos que nunca as tinham visto. Ergueram igrejas, escolas, hospitais. Mantiveram dialetos, tradições e sobrenomes por quatro, cinco, seis gerações.
Dizer que esses descendentes “ganharam de graça” a cidadania é ignorar que a jus sanguinis o princípio do sangue que a própria Itália inscreveu no Código Civil de 1865 foi uma escolha do Estado italiano justamente para reconhecer que ser italiano não é uma questão de solo, mas de continuidade cultural, familiar e histórica. Fasoli usa o próprio argumento legal para virar a mesa moralmente: “a lei diz que vocês são italianos, mas não merecem ser tratados como iguais.”
O Paradoxo do Representante que Não Representa
Há uma contradição estrutural incontornável no episódio: Fasoli participa do debate como representante do MAIE Brasil, um partido criado para defender os interesses dos italianos no exterior. E usa esse espaço para dizer aos italianos no exterior que eles deveriam ser humildes e gratos. Não é representação é tutela. E tutela condescendente.
O deputado Fabio Porta foi preciso ao identificar o fio condutor: o MAIE permaneceu na base do governo Meloni-Tajani mesmo durante a tramitação do chamado “decreto da vergonha”, que restringiu o acesso à cidadania italiana para descendentes no exterior. Um partido que se apresenta como defensor dos italianos fora da Itália, mas que se mantém silencioso ou conivente diante de medidas que os prejudicam diretamente, tem um problema de coerência que não pode ser disfarçado com discursos sobre humildade e gratidão.
Tratar descendentes de italianos como beneficiários passivos de uma generosidade estatal, em vez de reconhecê-los como parte viva e legítima da nação italiana espalhada pelo mundo, é uma visão que empobrece a Itália tanto quanto empobrece quem a professa. A diáspora italiana no Brasil representa uma das maiores comunidades de descendentes italianos do planeta. Ignorar esse peso histórico não é apenas uma falta de respeito é uma falta de inteligência política.
Se há uma lição a tirar desse episódio, é que a humildade que Fasoli exige dos descendentes seria muito mais bem aplicada pelos próprios representantes políticos que se colocam como intermediários entre a Itália e sua diáspora. Humildade para reconhecer que a história é complexa. Que emigrar não foi covardia nem esquecimento foi sobrevivência. Que manter viva a identidade italiana por gerações, em outro continente, em outro idioma, é um ato de amor que não precisa de tutela.
A Itália não “dá” cidadania aos descendentes por caridade. Ela a reconhece porque, juridicamente e historicamente, esses laços nunca foram cortados. Há uma diferença enorme entre as duas coisas e confundi-las, deliberadamente ou não, é o verdadeiro desrespeito nessa história.






















