Valentino Garavani construiu uma relação com o cinema que vai além do figurino: é um encontro de afinidades estéticas e trajetórias cruzadas. A presença de suas criações nas telas e nos red carpets marcou momentos decisivos da história do entretenimento, do glamour clássico às viradas contemporâneas.
A ligação com a sétima arte remonta a cenas icônicas. Em 1963, em Charade, Audrey Hepburn aparece com um conjunto de inspiração après-ski assinado por Valentino Garavani — imagem que entrou para o imaginário coletivo. Nos mesmos anos, a elegância dramática de Monica Vitti em La Notte, de Michelangelo Antonioni, inclui um vestido de coquetel preto que figura entre os frames mais lembrados do cinema italiano e que guarda afinidades com a estética do designer.
O vínculo entre moda e estrelato se reforçou nas décadas seguintes. Nos anos 1990, Julia Roberts tornou-se uma das musas contemporâneas do estilista, enquanto aparições recentes no tapete vermelho consolidaram a casa como escolha recorrente entre atrizes premiadas: Anne Hathaway optou por Valentino em noites decisivas, inclusive na cerimônia do Oscar.
Um dos episódios simbólicos dessa relação ocorreu em 1992, quando Sophia Loren subiu ao palco dos Academy Awards usando um vestido preto bordado com cristais assinado por Valentino. Décadas depois, em 2019, houve um movimento de reciprocidade: Valentino Garavani recebeu um prêmio em reconhecimento à sua carreira — entregue por Loren — gesto que cristaliza o entrelaçamento afetivo entre criador e intérpretes do cinema.
Outra afinidade pública e reiterada é a com Meryl Streep. No filme O Diabo Veste Prada — produção que volta às salas em 2026 com um aguardado sequel — personagens interpretadas por grandes atrizes usam peças de grife, e o próprio Valentino aparece em um cameo, interpretando a si mesmo. A presença da marca no enredo reforça a imagem da alta-costura como personagem simbólico na narrativa sobre moda e poder.
O apreço pessoal de Valentino Garavani pelo cinema também foi matéria-prima de documentário. O filme Valentino: The Last Emperor, dirigido por Matt Tyrnauer e lançado em 2009, acompanha o designer por dois anos (2005–2007), até seu anúncio de aposentadoria. O documentário registra, entre outros momentos, a celebração dos 45 anos de carreira em Roma e o retorno simbólico à cidade onde abriu seu primeiro ateliê, em Via Condotti, em 1957.
O retrato cinematográfico de Valentino inclui depoimentos e perfis de colaboradores e contemporâneos que mapeiam meio século de moda: nomes como Giancarlo Giammetti, Giorgio Armani, Tom Ford, Karl Lagerfeld e Anna Wintour aparecem para compor esse mosaico de influências e rivalidades criativas. Em uma das passagens mais lembradas do documentário, o estilista sussurra: “Après moi, le déluge” — frase que, hoje, é lida tanto como ironia quanto como reflexão sobre um legado em contínuo impacto.
O raio-x dessa interseção entre moda e cinema mostra que, para Valentino Garavani, o cinema foi simultaneamente catálogo, palco e caixa de ressonância: roupas que sobrevivem à cena porque se tornaram imagens de referência; aparições que consolidam mitos; parcerias que atravessam gerações. A trajetória do estilista no universo cinematográfico confirma um princípio simples e objetivo: a moda, quando alinhada ao cinema, transforma-se em memória coletiva.





















