Morreu no dia 11 de janeiro, aos 67 anos, o ator britânico Marcus Gilbert. Diagnosticado com câncer de garganta há três anos, ele acabou sucumbindo à doença, deixando uma carreira que atravessou teatro, cinema, televisão e até o universo dos podcasts. Nascido em Bristol em 28 de julho de 1958, Gilbert construiu uma filmografia marcada por personagens que, muitas vezes, funcionavam como um espelho das tensões geopolíticas e culturais de sua época.
Ao cinema, Marcus Gilbert alcançou o grande público em 1988 com Rambo III, no qual interpretou o colonnello do KGB Tomask, um antagonista de peso frente a Sylvester Stallone. Foi um papel que o colocou no mapa internacional, mas não o embalou apenas no imaginário da ação: no ano seguinte, ele apareceu na série cult Doctor Who como o comandante Ancelyn, um cavaleiro à maneira das lendas arturianas.
Na trajetória, também houve portas que quase se abriram para ele: chegou a ser cotado para o papel de James Bond, papel que acabou ficando com Timothy Dalton. Nos anos 1990, transitou por gêneros com naturalidade — do horror ao drama — interpretando Lord Arthur em Army of Darkness (O Exército das Trevas) e, sobretudo, conquistando a consagração na televisão como Rupert Campbell-Black na série Riders, adaptação do romance de Jilly Cooper. Foi esse personagem que o projetou definitivamente à audiência mais ampla.
Além das telas, Gilbert trabalhou em numerosos comerciais e, mais recentemente, emprestou sua voz ao podcast Unit: Brave New World, demonstrando uma versatilidade que atravessava formatos. A rede social de fãs do ator divulgou a notícia de sua morte com uma mensagem de pesar: “Hoje soubemos da triste notícia de que Marcus perdeu sua batalha contra o câncer. Junto aos seus inúmeros fãs no mundo, lamentamos sua perda e lembramos a alegria que nos deu na tela e na vida.”
A vida pessoal do ator foi marcada por tragédias precoces e perdas profundas: perdeu o pai e os avós quando tinha apenas 12 anos; e, em 2020, sofreu a perda da esposa, Homa Khan-Gilbert, com quem viveu 28 anos de casamento e teve dois filhos, Max e Aaliya. Homa faleceu em decorrência de um câncer de pâncreas. Mais recentemente, Marcus havia recebido o diagnóstico de Parkinson, notícia que se somou ao quadro já debilitado pelo câncer.
Como observadora que procura o roteiro oculto por trás dos feitos culturais, vejo na trajetória de Marcus Gilbert o eco de uma era: atores ingleses que, formados no teatro, atravessaram fronteiras de gênero e mídia, tornando-se vozes e imagens de um imaginário coletivo em mutação. Seu colonnello em Rambo III não é apenas um vilão do blockbuster; é, no espelho do nosso tempo, um símbolo das narrativas de conflito que dominaram o fim do século XX. E seu Rupert em Riders é a cartografia afetiva de uma Inglaterra em transição, entre a tradição e o espetáculo.
Ficam, além da filmografia, as lembranças familiares, as cenas que gravamos na memória e o sutil reframe que sua carreira oferece: como o entretenimento funciona como arquivo social, guardando medos, desejos e efemeridade.





















