Panforte é um doce emblemático da tradição natalina italiana, nascido e aperfeiçoado em Siena. Denso, aromático e cheio de textura, ele combina ingredientes simples frutos secos, candiedos, mel e especiarias para criar uma sobremesa que atravessa gerações. Nesta versão, inspirada na receita clássica, apresentamos o panforte coberto com uma camada generosa de açúcar de confeiteiro (a chamada versão “branca”); a alternativa mais intensa e picante é o panpepato, em que as especiarias assumem o protagonismo.
Por que você vai querer fazer este panforte
Além de ser um símbolo das festas, o panforte é curioso porque melhora com o tempo: uma semana guardado e ele ficará ainda mais macio e harmonizado nas notas de especiarias e mel. A receita é relativamente simples sem fermento, sem bater claras e exige apenas atenção ao ponto do xarope de mel e açúcar. É perfeito para presentear, para a mesa de Natal ou para acompanhar um café após a ceia.
Origem e história
O panforte tem raízes medievais e está associado a Siena por séculos. Originalmente, doces com mel, nozes e especiarias eram formas concentradas de energia e luxo, já que especiarias eram produtos caros e cobiçados. Com o tempo, a receita se standardizou e se tornou tradicionalmente ligada às festas. A versão com cobertura de açúcar é conhecida como ‘bianco’, enquanto a variante mais escura e picante recebe o nome de panpepato. Hoje o panforte é celebrado como patrimônio gastronômico toscano, e muitos lares italianos guardam receitas familiares que se transmitem de geração em geração.
Um doce caro destinado a nobres e religiosos
Se considerarmos o altíssimo custo para a época de especiarias e frutas cristalizadas, não surpreende que o consumo do panforte tenha sido por muito tempo restrito apenas ao clero e à nobreza, e que sua receita tenha sido cuidadosamente guardada por monges e boticários, os farmacêuticos da época. Foram justamente esses últimos que, durante toda a Idade Média, desempenharam um papel central na preparação e disseminação do doce, pois eram os únicos que podiam ter acesso às preciosas especiarias que, a partir do século XII, começaram a chegar à Itália vindas do Oriente, e também os únicos capazes de manipulá-las. Inicialmente usadas apenas com fins medicinais, as especiarias logo foram incorporadas à culinária para aromatizar e conservar alimentos, mas também para revigorar soldados, tornando-se ingredientes indispensáveis para aquele “panpepato” que mais tarde se transformou no panforte.
A verdadeira particularidade da receita do Panforte de Siena parece estar em uma espécie de número secreto que a caracteriza e, por esse motivo, é considerado quase mágico pelos seneses: o 17.
Desde 1675, são dezessete as contradas do Palio, e também seriam dezessete os “elementos” necessários para criar o panforte perfeito, na seguinte ordem: mel, açúcar, farinha de trigo, nozes, avelãs, amêndoas, melão cristalizado, cidra cristalizada, laranja cristalizada, raspas de limão cristalizado, casca de canela, coentro, pimenta aromática, pinhões, cravos-da-índia, água para sovar e fogo para assar.
Ingredientes (rende 1 bolo de 18-20 cm)
- 200 g de frutta secca (amêndoas, avelãs e/ou nozes, grosseiramente picadas)
- 150 g de candiedos em cubinhos (laranja e/ou cedro)
- 120 g de farinha de trigo
- 200 g de açúcar
- 150 g de miele (mel de boa qualidade)
- 1 colher de chá de canela em pó
- 1/2 colher de chá de noz-moscada ralada
- 1/4 colher de chá de cravo moído (opcional, com moderação)
- raspa de 1 laranja
- uma pitada de sal
- açúcar de confeiteiro para polvilhar
- manteiga para untar a forma; papel-nastri (ostia) ou papel manteiga para o fundo
Equipamento recomendado
- forma de aro removível (18-20 cm)
- panela pequena ou micro-ondas para aquecer mel e açúcar
- termômetro culinário (opcional, mas útil)
- espátula resistente ao calor
Modo de preparo: Passo a passo
A receita do panforte é baseada em três momentos: preparar os ingredientes secos, fazer o xarope de mel e açúcar, e unir tudo rapidamente antes que o xarope endureça. Leia a sequência completa antes de começar e organize os ingredientes.
- Prepare a mistura seca: Em uma tigela grande, junte as amêndoas e/ou nozes picadas, os candiedos cortados em cubinhos, a farinha de trigo peneirada e as especiarias (canela, noz-moscada e, se gostar, um toque de cravo). Adicione a raspa de laranja e uma pitada de sal. Misture com uma colher até ficar homogêneo.
- Faça o xarope: Em uma panela pequena, misture o mel, o açúcar e um pouco de água (cerca de 1 colher de sopa para ajudar a dissolver). Aqueça em fogo baixo, mexendo constantemente para dissolver o açúcar. O objetivo é chegar a uma consistência densa: se tiver termômetro, busque cerca de 115 °C (fase “soft ball”). Sem termômetro, fique atento: quando a mistura se torna brilhante e mais espessa, está pronta. Tenha cuidado para não queimar fogo baixo e paciência são essenciais.
- Incorpore o xarope aos secos: Derrame o xarope quente sobre a mistura de frutas secas e farinha. Misture vigorosamente com uma espátula resistente ao calor, integrando tudo. Trabalhe rápido, pois à medida que o xarope esfria ele endurece e dificulta a homogeneização. O ponto ideal é quando a massa fica brilhante e maleável, sem excesso de farinha solta.
- Prepare a forma: Unte generosamente a forma de aro removível com manteiga. Forre o fundo com uma folha de ostia (se disponível) ou com papel manteiga a ostia é tradicional e evita que o doce grude, mas o papel manteiga funciona bem.
- Assar: Distribua a massa na forma, pressionando bem para nivelar e garantir um espessura uniforme de cerca de 2-3 cm. Leve ao forno preaquecido a 180 °C por aproximadamente 18-22 minutos. O bolo não deve dourar muito; ele precisa ficar ligeiramente firme ao toque. Se usar uma forma muito grande, o tempo de forno pode reduzir; observe com atenção.
- Resfriamento e finalização: Retire do forno e deixe esfriar completamente na forma antes de desenformar esse passo é importante porque o panforte firma enquanto esfria. Quando estiver frio, desenforme com cuidado e polvilhe abundantemente com açúcar de confeiteiro, cobrindo toda a superfície. Se quiser, polvilhe também as laterais.
Dicas para acertar o ponto
- Use frutas secas e candiedos de boa qualidade: o sabor final depende muito da qualidade desses ingredientes.
- Se tiver termômetro culinário, use-o para controlar o xarope; 115 °C é o objetivo tradicional. Sem termômetro, confie no brilho e na consistência viscosa do mel aquecido com açúcar.
- Trabalhe rápido ao misturar o xarope com os secos. A massa fica cada vez mais difícil de modelar conforme esfria.
- Se não encontrar ostia, corte um círculo de papel manteiga no tamanho da forma para facilitar a remoção.
- Se gostar de intensificar as notas de especiaria, aumente levemente a canela, mas vá com calma no cravo ele pode dominar o conjunto.
Variações e personalizações
O panforte permite muitas variações, sempre mantendo a base: frutas secas, mel e especiarias.
- Panpepato: adicione pimenta-do-reino moída na hora e aumente cravo e noz-moscada para obter o tradicional panpepato, com sabor mais picante e marcante.
- Versão vegana: o mel pode ser substituído por xarope de agave ou glucose vegetal, ajustando a quantidade para alcançar a mesma consistência do xarope tradicional.
- Com chocolate: para um toque contemporâneo, incorpore pedacinhos de chocolate amargo à massa antes de assar ou banhe a base em chocolate derretido depois de frio.
- Com especiarias regionais: experimente cardamomo, anis-estrelado ou até uma pitada de pimenta da Jamaica para variações aromáticas interessantes.
Como conservar e por quanto tempo
O panforte é um dos doces que melhor se preservam: guarde-o embrulhado em papel manteiga (ou papel-alumínio) e dentro de um recipiente hermético. Em local fresco e seco, conserva-se por várias semanas — e, na verdade, tende a melhorar com alguns dias de maturação, quando os sabores se assentam. Evite a congelação, pois altera a textura e pode trazer umidade ao doce.
Como servir
Tradicionalmente servido em fatias finas, o panforte acompanha muito bem bebidas quentes após as refeições: um café expresso, um chá preto encorpado, ou um vinho de sobremesa italiano. Em mesas festivas, combine fatias de panforte com queijos de média cura para um contraste interessante entre o doce e o salgado.
O grande mérito do panforte é condensar ingredientes simples em um doce que é, ao mesmo tempo, rústico e sofisticado. Do ponto de vista técnico, a etapa mais delicada é o controle do xarope; por isso, a utilização de um termômetro é recomendada para quem busca repetibilidade. Outro ponto que merece atenção é a proporção entre frutas, farinha e mel: ao alterar demasiado essas quantidades você muda a textura final o ideal é manter a proporção para obter o equilíbrio tradicional entre crocância das nozes e a maciez do mel.
Erros comuns e como evitá-los
- Assar demais: O panforte não precisa dourar; assá-lo excessivamente o tornará seco. Retire quando estiver firme e levemente setado nas bordas.
- Massa muito seca: sinal de xarope pouco cozido ou de pouca gordura das frutas. Verifique se o xarope estava no ponto correto e se as frutas secas estão frescas.
- Falta de aroma: raspe casca de laranja fresca e use especiarias frescas e de boa qualidade. Especiarias muito velhas perdem intensidade.
Presenteando com panforte
O panforte é um presente clássico: embale com papel manteiga, coloque em uma caixa de lata ou papel kraft e finalize com uma etiqueta artesanal. Para vender ou presentear, identifique ingredientes que podem causar alergias (nozes, amêndoas) e inclua uma breve ficha com sugestões de consumo e validade.
Se você busca um doce que una tradição, sabor e versatilidade, o panforte é uma excelente escolha. A receita que apresentamos é fiel aos princípios clássicos: frutas secas, mel e especiarias em uma massa que celebra o tempo e a partilha. Faça com calma, respeite os pontos indicados e aproveite o processo — o resultado é uma fatia de história gastronômica que merece ser degustada com carinho.































