Em apuração in loco e com cruzamento de fontes, a realidade é clara: o Carnaval italiano é, acima de tudo, sinônimo de fritura. Nas ruas e nas mesas, as folhas finas e crocantes — conhecidas por múltiplos nomes — dominam a oferta de doces sazonais e definem a identidade gastronômica desse período.
Os termos variam conforme a região. No centro, sobretudo no Lazio, em Umbria, nas Marche e em parte do Abruzzo, o doce aparece como frappe. No norte e em várias áreas do sul você encontrará as chiacchiere (Lombardia, Emilia-Romagna, Campania, Basilicata, Puglia, Calabria e Sicilia). Em Piemonte, Ligúria e Valle d’Aosta são chamadas de bugie, enquanto na Toscana o nome tradicional é cenci. Há ainda inúmeras variantes locais, que remetem a tradições e vocabulários específicos.
Historicamente, essa prática deriva das frictilia, frituras do período romano ligadas aos Saturnalia e ai banquetes bacanais, e passa pelas festas medievais dos chamados «folli». O Carnaval consolidou-se como festa do excesso e da abundância, contraponto direto à austeridade da Quaresma — que, em 2026, começa na quarta-feira de Cinzas, em 18 de fevereiro.
Enquanto o calendário avança para o clímax no próximo terça-feira gorda, a oferta de doces é ampla: além das tradicionais frappe/chiacchiere, as castagnole estão espalhadas por todo o país — pequenas bolas de massa frita, por vezes recheadas com ricota ou cremes. Também ocupam destaque pignolata, frittelle di riso, zeppole e struffoli, entre outros. Todos eles reforçam o mesmo padrão: fritura como técnica predominante.
No discurso técnico, especialistas explicam que a fritura, além de conferir textura e sabor, responde a demandas práticas: permite preparo rápido, porções em grande quantidade e custos reduzidos — fatores importantes quando o objetivo é oferecer generosidade à mesa. Em cidades com tradição de fritura, o aforismo popular se mantém: “no doute, friggere” — traduzido livremente, “na dúvida, frite”.
Vale notar uma observação de ofício: quando alguém afirma que as frappe ou chiacchiere são assadas, a experiência de padarias e confeitarias aponta que muitos preparos passam por uma fritura inicial antes de eventual finalização em forno. É um detalhe que confirma o predomínio da fritura na cadeia de produção.
Para quem acompanha os fatos brutos do cotidiano, a conclusão é objetiva: do norte ao sul, o Carnaval italiano se desenha em tons dourados e estalos de óleo quente. Até a terça-feira gorda, o convite é claro: suspenda a contagem de calorias e desfrute da abundância; o período de contenção — a Quaresma — terá tempo para ajustes posteriores.






















