Por Otávio Marchesini, Espresso Italia — Em uma noite que combina memória e renovação, Andrea Voetter e Marion Oberhofer escreveram uma página inédita para o esporte italiano ao conquistar o ouro no duplo feminino do slittino nos Jogos de Milano Cortina 2026. A prova, realizada no novo traçado das Tofane batizado em homenagem a Eugenio Monti, marcou o debut olímpico da prova e consagrou as duas atletas do Alto Adige como as primeiras campeãs desta disciplina nos Jogos.
Após duas descidas sólidas, a dupla italiana fechou a soma em 1’46″284, superando as alemãs Dajana Eitberger e Magdalena Matschiner, que faturaram a prata com 1’46″404, e as austríacas Selina Egle e Lara Michaela Kipp, que completaram o pódio com 1’46″543. O resultado tem valor esportivo e simbólico: não apenas coroou uma trajetória, mas também reafirmou a importância de um desenvolvimento enraizado no território.
Voetter e Oberhofer chegam ao topo depois de temporadas marcantes — foram campeãs da Copa do Mundo geral em 2023 e 2024 — e um jejum de vitórias em etapas de Copa que durou quase dois anos. O ouro olímpico sucede ao bronze de Dominik Fischnaller, e, juntos, evidenciam que treinar em casa, na pista local, foi determinante para a consolidação do movimento do slittino italiano.
O trabalho técnico é guiado por uma figura que transcende gerações: o diretor técnico Armin Zoeggeler, referência absoluta do esporte, que colecionou seis medalhas olímpicas entre 1994 e 2014 e que, em 2006, já havia devolvido à Itália a condição de potência ao conquistar o ouro em casa, em Turim. A vitória de Voetter e Oberhofer representa, portanto, a continuidade de um ciclo que une memória, técnica e identidade regional.
Mais que números, o triunfo simboliza uma tradição: esta é a vigésima medalha do país no slittino ao longo da história olímpica, e, mais especificamente, a terceira medalha de ouro feminina para a Itália após as conquistas de Erica Lechner (Grenoble 1968) e Gerda Weissensteiner (Lillehammer 1994). É também mais um capítulo do protagonismo do Alto Adige na disciplina — todas as medalhas olímpicas italianas no slittino foram conquistadas por atletas desta região.
O sucesso foi celebrado oficialmente por autoridades como o ministro do Esporte Andrea Abodi, o presidente da Fondazione Milano Cortina Giovanni Malagò e o presidente do CONI Luciano Buonfiglio. O presidente da Província Autônoma de Bolzano, Arno Kompatscher, resumiu o sentimento público: “Este ouro olímpico é um capolavoro di determinazione e bravura”, uma afirmação que reitera como o esporte regional se projeta no palco global.
Do ponto de vista histórico e cultural, o triunfo de Voetter e Oberhofer confirma que o slittino italiano não vive apenas de episódios isolados: é produto de uma tradição institucionalizada, de estruturas de formação bem enraizadas e de uma memória esportiva que liga gerações — de Hildgartner e Zoeggeler a esta nova dupla campeã. Em Cortina, a pista de Monti tornou-se, por uma noite, o lugar onde passado e presente dialogaram com a mesma velocidade das sleds.





















