Viktorija Mihajlovic, filha mais velha do ex-jogador e treinador Sinisa Mihajlovic, publicou nas redes sociais uma carta emotiva em que descreve com precisão jornalística os últimos dias do pai no hospital, antes de sua morte em 2022 por uma grave forma de leucemia.
Na mensagem, que viralizou entre torcedores e profissionais do esporte, Viktorija relata sensações, rituais e imagens que marcaram o período de internação. A narrativa é direta, seca em detalhes e revela a rotina dos familiares que acompanhavam o tratamento: o cheiro do desinfetante ao entrar, a sensação do perfume frio que permaneceu mesmo ao sair, a subida diária de escadas em razão de um elevador que “era escuro, cansado, dava medo”.
O relato descreve ainda a espera na entrada do setor médico: “as cadeiras de madeira que me puxavam o cabelo” e as pessoas sentadas com aquele olhar entre esperança e resignação. “Basta um olhar, em certos lugares, para entender tudo sobre alguém”, escreve ela, em frase que traduz o clima de corredores hospitalares e a íntima leitura do sofrimento alheio.
Antes de entrar no quarto do pai, cada gesto se transformava em um pequeno rito: vestir o avental, colocar a máscara, cobrir os sapatos e esconder os cabelos. Ela menciona detalhes que humanizam a rotina médica — a janela por onde o pai a acenava sempre fechada, as duas portas do quarto que exigiam uma espera ordenada (abrir a primeira, fechar, aguardar, só então entrar), e até a televisão sempre ligada como companhia silenciosa.
Pequenos contrastes surgem no texto: os “sanduíches de mortadela” do bar no outro pavilhão, o lado corriqueiro que permanece mesmo em ambiente extremo. E sobretudo, a família e os momentos privados que Viktorija guarda como “coisas frágeis e preciosas”, que resistiram à dureza do local e que ela recusa-se a esquecer.
“Tudo o que foi seu, tudo o que fala de você, quero levar comigo, para sempre”, afirma na carta, frase que fecha a peça como um juramento memorial. Não se trata de retórica: o texto se configura como um inventário de memórias intencionais, uma operação de preservação afetiva articulada por meio de fatos concretos e de imagens sensoriais repetidas.
O episódio reacende a atenção sobre a trajetória pública de Sinisa Mihajlovic, figura conhecida no futebol europeu tanto pela carreira como jogador e técnico quanto pela luta pública contra a doença. A mensagem de Viktorija é ao mesmo tempo íntima e pública, e tem servido de referência para torcedores, colegas e profissionais de saúde envolvidos em narrativas de perda e cuidado.
Do ponto de vista jornalístico, o texto publicado nas redes confirma duas dimensões importantes: a urgência de registrar memórias enquanto são vívidas e a potência descritiva dos pequenos detalhes cotidianos para reconstruir a realidade dos últimos dias. A carta foi amplamente compartilhada, recebendo manifestações de solidariedade e respeito nas plataformas digitais.
Como repórter que cruza fontes e prioriza a precisão, registro que a família já havia comunicado oficialmente o falecimento em 2022, atribuído a complicações de uma leucemia. A postagem de Viktorija complementa esse registro público com um material testemunhal que ajuda a compreender não apenas o evento da morte, mas seu tempo e textura humanos.






















