As manifestações da base Lazio contra o presidente do clube, Claudio Lotito, ganharam novo capítulo em Roma: nesta manhã surgiram nas ruas da cidade cerca de 15 mil exemplares de manifestos com o símbolo do partido Forza Italia riscado e a frase — em italiano — “Finché c’è Lotito non avrete il nostro voto”. A ação, associada ao histórico desconforto entre torcida e direção, acompanha um boicote já praticado pelos torcedores nas arquibancadas e uma petição que ultrapassou as 40 mil assinaturas.
Os cartazes foram rapidamente viralizados em sites, blogs e redes sociais ligados às torcidas organizadas e aos ultras biancocelesti. A mensagem, direta e simbólica, não apenas reclama da gestão esportiva, mas faz uma articulação explícita entre identidade clubística e representações políticas — uma interseção que, na Itália, tende a acirrar debates e a mobilizar memórias coletivas de antagonismo regional e partidário.
Do ponto de vista institucional, a repercussão foi imediata. Giorgio Mulè, deputado do Forza Italia, vice-presidente da Câmara e torcedor da Lazio, comentou em tom de reprovação e ironia: “È l’ennesimo fallo proibito nei confronti del presidente Lotito. Mischiare politica e sport è la cosa più sbagliata che si possa fare. Saranno tifosi della Roma…”. A reação busca deslegitimar a manifestação ao enquadrá-la como um erro de enfoque — misturar política e esporte — e ao mesmo tempo reduz o movimento a um ataque de torcida rival.
Há duas camadas que merecem atenção. A primeira é factual: um número expressivo de adesões à petição e a mobilização visual nas ruas confirmam que parte significativa da base não se sente representada pela atual direção. A segunda é simbólica e cultural: ao riscar o emblema de um partido, os torcedores traduzem um conflito interno do clube em linguagem de disputa política, invertendo o sentido de um espaço que tradicionalmente se queria apenas esportivo.
Como analista atento às intersecções entre esporte e sociedade, observo que esse tipo de protesto expõe fragilidades — não somente da gestão vigente, mas do próprio pacto entre clube e torcedor. Estádios e ruas convergem em arenas públicas de contestação, onde símbolos partidários, memória afetiva e expectativas de sucesso competitivo se entrelaçam. A pergunta que fica é sobre os caminhos institucionais possíveis: negociações internas, demanda por novas lideranças ou manutenção do atual status quo, sustentado por estruturas políticas e econômicas já consolidadas.
Por ora, a reação oficial e midiática tende a polarizar: defesa de dirigentes de um lado, acusações e mobilização popular do outro. Resta ver se as assinaturas, os cartazes e o silêncio nas arquibancadas serão apenas episódios de frustração ou o início de um processo de pressão capaz de alterar rumos no comando do clube.
Por Otávio Marchesini, repórter de Esportes — Espresso Italia






















