Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Em um dos episódios mais curiosos e simbólicos desta edição dos Jogos, Snoop Dogg voltou a cruzar as fronteiras entre entretenimento e Olimpíada ao participar ativamente de uma sessão de curling em Milano Cortina 2026. Presente como enviado especial da NBC e figura honorária — listado como treinador honorário da equipe americana — o rapper não se limitou às transmissões: calçou patins sobre o gelo e ajudou a ‘varrer’ uma stone ao lado do jogador Danny Casper.
O encontro com os principais nomes da modalidade foi tanto lúdico quanto revelador. Depois da vitória americana no duplo misto, Cory Thiesse e Korey Dropkin, Snoop Dogg aproximou-se das quadras e estabeleceu uma relação afável com atletas e técnicos. A cena, que poderia ser apenas mais um encontro de celebridade, ganhou contornos de reconhecimento recíproco quando os britânicos Bruce Mouat e Jennifer Dodds revelaram o desejo de obter o selfie que o artista havia tirado com eles — uma foto que, por ironia, acabou não ficando com o trio.
O relato de Jennifer Dodds reflete o espanto comum em situações assim: “Passamos e pensamos ‘é o Snoop Dogg’, encantados; depois, voltaram-nos dizendo que ele queria um selfie. Dissemos ‘ok’ — mas não conseguimos registrar a imagem com nossos telefones”. Bruce Mouat acrescentou surpresa ao afirmar que o rapper já os conhecia: “Ele disse ‘ouvi falar de vocês’, o que é impressionante”.
Além do gesto casual, a presença de Snoop Dogg carrega um simbolismo mais amplo. Figura que já foi porta-bandeira de eventos — inclusive como tedoforo em Paris 2024 —, sua participação em esportes menos midiáticos como o curling contribui para deslocar percepções: do folclore de uma modalidade de nicho para a possibilidade real de público e interesse ampliados. Mouat, nesse sentido, destacou o papel do artista como apoiador consistente dos Jogos: “Gosto que ele tenha se tornado um grande fã das Olimpíadas. Vem e prestigia diversos eventos, não só os mais notórios”.
Como analista, é importante notar que episódios como este têm dupla leitura. Por um lado, atraem atenção e recursos de mídia que elevam o perfil da modalidade; por outro, obrigam federações e organizadores a negociar a presença de celebridades de maneira que preserve a essência competitiva e comunitária do esporte. Em termos identitários, a imagem de um artista multicultural varrendo o gelo ao lado de atletas profissionais reforça a ideia de Olimpíada como espaço público — onde tradição, espetáculo e política cultural se encontram.
Em suma, a participação de Snoop Dogg em Milano Cortina 2026 foi mais do que uma novidade para os tabloides: foi um sintoma de como a globalização cultural e a economia da atenção reconfiguram o mapa simbólico do esporte olímpico. Para o curling, resta aproveitar o momento e transformar curiosidade em audiência e legado.






















