Jannik Sinner começou com autoridade sua campanha no Qatar ExxonMobil Open, o ATP 500 de Doha. O italiano, atual nº 2 do mundo e segundo cabeça de chave, venceu de forma limpa o tcheco Tomas Machac por 6-1, 6-4 em pouco mais de uma hora de jogo. Nas oitavas, o alto‑atesino terá pela frente o australiano Alexei Popyrin, 53º do ranking.
Mais do que um resultado isolado, a vitória em Doha tem significado estratégico: com o pontapé inicial do torneio no Catar, recomeça na prática a corrida de Sinner rumo ao trono ocupado por Carlos Alcaraz. No começo deste torneio, após a conquista em Melbourne, Alcaraz detém 13.650 pontos, enquanto Sinner aparece com 10.300 — uma diferença de 3.350 pontos. É um abismo estatístico, mas não necessariamente um bloqueio definitivo para a ambição do italiano de destronar o espanhol antes dos grandes torneios em solo espanhol, em abril, ou mesmo antes dos Internazionali d’Italia, em maio.
O calendário favorece parcialmente Sinner. A sequência de 2025 deixou lacunas no ranking do italiano: após o início no ano, o alto‑atesino teve uma pausa de três meses depois de Melbourne e só retornou em maio, em Roma, acumulando assim pontos zerados nos torneios intermediários que agora podem ser substituídos por resultados positivos. Em termos práticos, pontos que não chegaram ao cofre de Sinner no ano passado estarão disponíveis desde hoje até o torneio do Foro Italico, onde perdeu a final para Alcaraz.
Para o espanhol, a temporada passada também teve nuances que influenciam o presente. Em 2025 ele não dominou desde o início e, ao renunciar ao ATP 500 de Rotterdam — torneio do qual era campeão — perdeu 500 pontos, reduzindo sua conta para 13.150. Em Doha, onde no ano anterior caiu nos quartas, o desconto será pequeno (cerca de 100 pontos).
Se hipoteticamente Sinner chegasse à final em Doha e vencesse, subiria para 10.800 pontos contra 13.350 de Alcaraz. O confronto entre os dois, no entanto, segue calendário adiante e ganha relevância em Indian Wells (ATP 1000): Alcaraz terá 360 pontos a descartar relativos ao ano anterior (semifinal de 2025). Um final conjunto em Indian Wells com vitória de Sinner colocaria o italiano em 11.800 pontos, frente a 13.590 do espanhol.
No Miami Open, as contas favorecem outra oportunidade: Alcaraz trouxe apenas 45 pontos de 2025 (queda precoce), o que aumenta o potencial de aproximação caso Sinner conquiste o título na Flórida. Nessa hipótese, os números projetados situariam Sinner em 12.800 pontos contra 14.145 de Alcaraz.
O ponto de inflexão possível aparece em Monte‑Carlo (5 a 12 de abril), torneio de 1000 pontos vencido por Alcaraz na temporada anterior: o espanhol pode manter até 14.145, enquanto Sinner teria a chance de somar o máximo. Caso o italiano vença novamente — numa sequência de hipóteses que pressupõe finais diretas entre ambos — o cenário desenha um eventual “sorpasso” antes de Barcelona: chegando ao torneio catalão, as contas projetadas colocariam Alcaraz com 13.745 pontos e Sinner com 13.800.
Do ponto de vista histórico e estrutural, o duelo não é só estatística de pontos. Representa a tensão entre gerações numéricas, calendários que premiam consistência e decisões pessoais (ausências, gestão de calendário) que redesenham hierarquias. Sinner, com sua disciplina e aceleração técnica, e Alcaraz, com seu repertório e status, disputam não apenas um posto, mas a capacidade de dominar a narrativa do circuito numa temporada que promete requadrar a geografia do tênis mundial.
Hoje, em Doha, o gesto foi claro: Sinner voltou a vencer com autoridade. O caminho até o número 1 permanece longo, matematicamente custoso e dependente de muitos cenários. Mas, como a história do esporte ensina, as distâncias mais largas também começam com uma partida bem jogada.





















