Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Foi uma noite que confirmou, com clareza, que o circuito não tolera mais mitologias fáceis. Em Doha, quando o relógio já apontava para além da 1h local, Jannik Sinner sofreu a segunda derrota da temporada ao ser superado por Jakub Mensik. Depois do revés com Novak Djokovic em Melbourne, o número 2 do mundo encontrou um adversário que não se chama Alcaraz nem tem a aura dos intocáveis — e perdeu.
O resultado em si não é surpresa absoluta se ponderarmos a qualidade do rival: Mensik fez uma partida de alto nível, com percentuais de acerto e profundidade que, por vezes, obrigaram até o sempre contido Sinner a admitir a superioridade momentânea. Mas há camadas importantes nessa leitura que merecem ser destacadas.
Primeiro: as condições. A partida começou tarde e terminou depois da meia‑noite; a umidade noturna em Doha torna a bola mais pesada e reduz os saltos rápidos que favorecem o estilo explosivo de Sinner. Em segundo lugar, os números do serviço — indicador central no jogo do italiano — apontaram para uma dificuldade: Sinner registrou apenas 63% de primeiros serviços, o pior índice nas três partidas disputadas no torneio. Para efeito de comparação, contra Machac o número tinha sido 69% (com 86% dos pontos vencidos quando entrou o primeiro saque) e frente a Popyrin chegou a 74%.
Além do aspecto técnico, houve sinais físicos e de ritmo. Aquele Sinner que segura longas corridas, que impõe o ritmo com pernas incisivas, não apareceu com a mesma constância. Não era a mesma sensação que se viu em alguns picos de 2024. O próprio jogador relativizou em entrevista: “Há momentos pelos quais tenho que passar e pelos quais passaram todos os tenistas. Talvez fiz duas ou três escolhas erradas, não estive claríssimo, mas não é nenhum desastre”. A lucidez da frase diz muito: reconhecer a humanidade é condição para encontrar remédio e ajustar rotas.
Do ponto de vista pragmático, a sequência do calendário já estava traçada: Sinner e sua equipe — note‑se que Darren Cahill não estava em Doha, uma rotação programada — voltarão a Monte Carlo para preparar a chamada Sunshine Double norte‑americana, que inclui Indian Wells e Miami. Indian Wells, com superfícies mais lentas, deverá pedir ajustes táticos; Miami, por sua vez, é um dos palcos onde Sinner construiu marcos importantes — foi lá que disputou a primeira final de Masters 1000 em 2021 e onde venceu em 2024.
O revés em Doha não é, portanto, um veredito definitivo sobre a temporada de Sinner, mas um lembrete: o topo do tênis é terreno de pequenas margens. Entre acertos técnicos, condições ambientais e gestão física, passa a capacidade de recuperação. Para um jogador da estatura e do projeto de Sinner, a narrativa importante não é a derrota isolada, e sim a resposta. E essa resposta passa por ajuste de detalhes — serviço, leitura de superfície e presença da equipe técnica nos momentos certos — mais do que por dramas imediatos.
Enquanto isso, Mensik escreve uma página importante da sua formação: derrotar um número 2 em cenário oficial é marco que fala de confiança e projeção. No tabuleiro do circuito, resultados como este reequilibram expectativas e relembram que, além das etiquetas de favoritismo, o tênis continua sendo um espelho das forças relativas do dia.






















