Fazer passo a passo foi a orientação explícita de Luciano Buonfiglio, presidente do CONI, ao comentar a possibilidade de uma futura candidatura italiana para sediar as Olimpíadas de Verão. Na conferência de encerramento da delegação italiana em Milano Cortina 2026 — onde a Itália conquistou 30 medalhas, recorde histórico nos Jogos de Inverno — Buonfiglio sublinhou que qualquer projeto deve nascer de uma ampla convergência política e institucional: Governo, administrações locais e regionais, o Comitato Olimpico e a entidade Sport e Salute precisam estar alinhados.
O sucesso organizacional de Milano Cortina 2026 funcionou como um cartão de visitas de peso. Os elogios e o reconhecimento por parte do Comitê Olímpico Internacional reforçaram a credibilidade italiana no circuito olímpico. “Deve ser uma squadra che tutta unita decida di portare avanti il progetto”, insistiu Buonfiglio: não basta sonhar, é preciso estruturar um percurso de compromissos concretos — a organização de mundiais e de campeonatos continentais que dêem substância às ambições olímpicas e credibilidade aos promotores.
Dentro dessa perspectiva, Roma surge como candidata natural, por sua história e por sua infraestrutura simbólica. A pergunta prática é: para qual edição? Com as datas já definidas para Los Angeles 2028 e Brisbane 2032, as janelas abertas mais óbvias apontam para 2036, 2040 ou 2044. A evocação do ano de 2040 ressoa duplamente para a capital italiana: seria uma celebração a 80 anos dos Jogos de Roma de 1960, um momento de forte carga simbólica.
O calendário de atribuições normalmente vê as sedes anunciadas cerca de sete anos antes da realização, embora haja precedentes de decisões tomadas com mais antecedência — Brisbane foi confirmada com 11 anos de margem. A competição pelas próximas edições promete ser intensa e marcada por vetores geopolíticos: não apenas candidaturas nacionais, mas alianças regionais e intercontinentais serão determinantes.
Para 2036, pelo menos seis nações já foram citadas como pretendentes: Indonésia (Nusantara), Turquia (Istambul), Índia (Ahmedabad), Chile (Santiago) e Qatar (Doha), além da Alemanha, que alimenta a ideia de um retorno das Olimpíadas em data próxima ao centenário de 1936 — proposta que levanta debates históricos e políticos. O presidente federal Frank-Walter Steinmeier tem sugerido que 2036 talvez não seja o momento ideal para a Alemanha e que 2040 ou 2044 poderiam ser mais apropriados. Entre as mencionadas, apenas a Alemanha já recebeu os Jogos Olímpicos de Verão.
Num contexto onde potências emergentes e Estados do Golfo tentam consolidar presença no calendário esportivo, a possível candidatura de Roma ao projeto olímpico exige mais do que desejo: precisa de construção narrativa, planejamento de legado, coerência fiscal e consenso político. Buonfiglio deixou claro que não se trata de um projeto pessoal; é um projeto intergeracional, pensado para “chi ci sarà dopo” — para as próximas gerações e para a perenização de um modelo de grande evento que combine prestígio e responsabilidade pública.
Como analista, é preciso ver essa iniciativa italiana como parte de uma leitura maior: os megaeventos esportivos continuam sendo palcos onde se expressam ambições nacionais, capacidades administrativas e modelos de desenvolvimento urbano. Se Roma decidir entrar definitivamente na corrida para 2040, será o reflexo de uma Itália que, à sombra de seus monumentos, busca rearticular poder simbólico e estratégia prática num mundo onde o esporte é também diplomacia e economia.






















