Rocco Commisso não foi apenas um empresário de sucesso entre os imigrantes italianos nos Estados Unidos; foi, acima de tudo, um torcedor que transformou sua paixão em projeto. A família, no comunicado oficial que anunciou sua morte, definiu sem rodeios: a Fiorentina foi “a coisa mais bela que me dei”.
O magnata ítalo-americano de origem calabresa comprou o clube em 6 de junho de 2019, assumindo um papel público e direto na gestão do time viola. Desde então, a trajetória do clube sob sua tutela oscilou entre avanços esportivos e frustrações: duas finais de Conference League, uma final de Coppa Italia e a persistente ausência de um troféu que Florence não celebra desde 2001.
Em entrevista ao jornal La Nazione, em 11 de dezembro, quando estava nos Estados Unidos para tratamento, Commisso havia rejeitado rumores sobre a possível venda do clube. “Tutte le aziende attraversano momenti difficili… Io non ho mai mollato” — dizia, reafirmando a intenção de não ceder a Fiorentina mesmo diante de resultados esportivos aquém do esperado e das vozes que circularam sobre um futuro negócio com fundos americanos ou árabes.
Na apresentação oficial aos torcedores no Estádio Franchi, usou palavras simples e diretas: “Eu sou um torcedor, me chamem de Rocco”. A partir desse momento, sua gestão foi marcada por mudanças técnicas constantes — com treinadores que passaram por Montella, Iachini, Prandelli, Italiano, Palladino, Pioli e, mais recentemente, Vanoli — e por investimentos estruturais significativos.
Entre as realizações mais visíveis está o Viola Park, centro esportivo de 22 hectares em Bagno a Ripoli. Projetado para abrigar a equipe principal, as equipes femininas e as categorias de base, o complexo foi erguido com um investimento estimado em 120 milhões de euros e é hoje um dos maiores centros de treinamento da Itália e da Europa.
Outra ambição — a construção de um novo estádio para a Fiorentina — não saiu como desejado. Commisso chegou a qualificar a frustração pela falha nesse projeto como “meu maior fracasso”. Ainda assim, continuou atuante nos últimos dias, dividido entre as responsabilidades na Mediacom e na gestão do clube.
O luto na comunidade viola foi imediato. No comunicado do clube e em mensagens dos torcedores, o sentimento é de perda não apenas de um proprietário, mas de alguém que queria ver a Fiorentina recuperar um lugar de destaque no futebol europeu, incluindo o objetivo declarado de regressar à Champions League.
Uma das perdas pessoais que mais marcou Commisso foi a morte súbita de Joe Barone, seu homem de confiança e diretor geral em Florença, em 19 de março de 2024. Barone era a peça-chave na organização local do clube; sua ausência deixou um vazio que o presidente lamentou publicamente.
Com a morte de Commisso, a família e os administradores terão pela frente decisões cruciais sobre o futuro da propriedade: manter a gestão familiar da Fiorentina ou aceitar propostas de investidores estrangeiros. Até o momento, circulam rumores sobre interesses de fundos dos Estados Unidos e do Oriente Médio, mas nada oficial foi confirmado.
O cenário prático é claro: sob o ponto de vista dos fatos brutos, Commisso deixou uma obra inquestionável em infraestrutura e investimentos, projetos ambiciosos sem a recompensa de um troféu. Do ponto de vista humano, deixa uma relação estreita com a torcida e uma identidade marcante na história recente do clube.





















