Por Giulliano Martini — Correspondente em Itália. Apuração in loco e cruzamento de fontes.
A polêmica sobre a seleção dos tedofori para as Olimpiadi Milano‑Cortina 2026 ganhou mais um capítulo com o depoimento direto do campeão Piero Gros. Em entrevista à La Gazzetta dello Sport, o ouro no slalom de Innsbruck 1976 relatou ter sido contactado por mensagem no WhatsApp cerca de um mês atrás, convidado a levar a fiamma olimpica — sem, no entanto, receber detalhes sobre o local da passagem.
Segundo Gros, ao responder positivamente fez uma controproposta: participar da cerimônia em Milano ao lado de todos os medalhados olímpicos italianos, independentemente da edição dos Jogos. “Ritengo che le Olimpiadi si facciano perché ci sono gli atleti: se gli atleti non sono invitati neanche a un’Olimpiade che si svolge in casa, tanto vale stare a casa tutti”, disse o ex‑atleta, cujo relato reforça o desconforto de muitos esportistas que se sentiram excluídos do ato simbólico.
Gros afirma ter sido ignorado após a proposta. “Niente, zero. Nem sequer un ‘Ma che stai dicendo’, un ‘No non è possibile’…”. Para ele, a forma de abordagem também foi inadequada: um convite por WhatsApp que, depois da contestação, não teve retorno. “Non mi sembrava di aver detto un’eresia. Invece sono stato ignorato totalmente. Peraltro io sono abbastanza lapidario, per cui dopo poco ho cancellato tutto e ora non ho più quel numero. E poi una cosa così non si chiede su WhatsApp, si alza il telefono no?”
O episódio confirma o diagnóstico antecipado pelo fatoquotidiano.it: a passagem da tocha tem privilegiado influenciadores, atores, chefs e cantores em detrimento de atletas, sobretudo das modalidades de inverno. A sequência de reclamações dos esportistas transformou a escolha dos tedofori em tema político: a Lega classificou a gestão como “incomprensibile e sconcertante” e o ministro dello Sport, Andrea Abodi, anunciou que solicitará esclarecimentos à Fondazione Milano‑Cortina e ao CONI para apurar os critérios de seleção.
Gros relatou ainda um convite tardio do assessor de Esportes do Comune di Torino, Paolo Carretta, para levar a tocha numa passagem prevista para um domingo. Ele negou e justificou a recusa: “Ho detto di no perché ho ritenuto che l’iniziativa nascesse da una dimenticanza, non sua, perché che la Fiamma sarebbe passata domenica da Torino si sapeva da molto tempo; se mi chiamano il giorno prima è palesemente una dimenticanza”.
O núcleo da controvérsia é claro nos fatos brutos apurados: há um descompasso entre a simbologia olímpica — construída historicamente sobre atletas e valores esportivos — e a gestão prática da cerimônia de revezamento da tocha. A reação de Gros reforça um diagnóstico já percebido por outros nomes do esporte: ausência de critérios transparentes, comunicação informal e priorização de perfis midiáticos em detrimento de quem representou o país nas pistas e pódios.
Do ponto de vista institucional, a investigação prometida pelo ministério do Esporte e a pressão política poderão forçar alterações nos procedimentos. Para os atletas, resta a exigência de um mínimo de rispetto institucional e de tratamento condizente com o papel que desempenharam na história olímpica italiana.















