Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
“Trekking entre as sedes das Olimpíadas de Inverno na Itália? Melhor não ter pressa.” É com esse tom irônico que o New York Times assinou o seu reportaje sobre as Milano-Cortina, colocando no centro da análise o que descreve como o maior desafio do evento: a logística.
O correspondente em Roma, Jason Horowitz, percorreu as rotas entre os polos olímpicos e documentou problemas que, segundo o jornal americano, podem transformar os jogos num verdadeiro “pesadelo logístico”: distâncias longas, estradas estreitas, ligações complexas e a imprevisibilidade das nevascas. São oito sedes distintas distribuídas por cerca de 8.500 milhas quadradas no norte da Itália — mais de 22 mil km² — uma dispersão territorial que obriga os organizadores a celebrar cada túnel novo, cada incremento no serviço ferroviário e cada extensão de linha de ônibus como se fossem pequenas vitórias contra o risco do colapso.
O relato inclui um episódio simbólico: Horowitz teria ficado retido numa estrada secundária por causa do gelo e precisou ser auxiliado por uma campeã olímpica. A anedota ilustra, com clareza quase metafórica, a tensão entre a imagem de uma Olimpíada “em movimento” — defendida desde o início pelo Comitê Organizador — e as dificuldades práticas de operacionalizar esse modelo.
Há razões para a opção italiana pelo modelo espalhado. Em resposta às críticas sobre custos astronômicos de edições anteriores — notadamente os gastos superiores a 40 bilhões nas Olimpíadas de Pequim —, o então presidente do COI, Thomas Bach, recomendou que candidatos privilegiassem instalações existentes e se adaptassem às realidades locais. A Itália atendeu a essa diretriz, mas o custo político e operacional passou a ser a dependência de que trens, aviões e automóveis funcionem com pontualidade quase militar.
Para mitigar os riscos, foram acrescentados ônibus de emissão zero, reforçados serviços ferroviários e mobilizadas frotas de Fiat Panda e Alfa Romeo destinadas a transportar autoridades e VIPs. Estima-se que esses meios realizarão cerca de 400.000 trajetos e transportarão 1,5 milhão de pessoas durante o período dos jogos. Nas vésperas da abertura, as vias pareciam um enorme slalom de cones laranja: operários pintando faixas de pedestre, despejando concreto e instalando sinalização, num esforço acelerado para finalizar intervenções essenciais.
Os organizadores criaram, inclusive, um aplicativo e um plano de mobilidade detalhado para orientar deslocamentos entre as competições. Ainda assim, o NYT chama a atenção para um dado inquietante: o percurso “ideal” entre eventos de curling e bobsled em Cortina, nas Dolomitas, e as provas de snowboard em Livigno, na fronteira com a Suíça, prevê um tempo de viagem de 18 horas e 6 minutos. Além disso, há reclamações locais: moradores que se queixam dos pass especiais necessários para manter suas rotinas diárias expressam um ressentimento que tende a crescer quando a presença internacional aumenta.
O caso Milano-Cortina revela uma tensão estrutural do esporte contemporâneo: a tentativa de descentralizar e reutilizar equipamentos como resposta à crítica dos excessos financeiros é legítima, mas expõe fragilidades de infraestrutura e de coesão territorial. Se os jogos servem como vitrine para um país, mostram também — com brutalidade — os limites das suas conexões.
Enquanto as delegações chegam e as cerimônias se aproximam, resta observar se as medidas paliativas serão suficientes para transformar o risco anunciado pelo New York Times em uma operação que funcione com regularidade ou se a dispersão das sedes confirmará, para além das manchetes, o diagnóstico de um grande desafio logístico para esta edição dos jogos.






















